Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?
Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos, e pouco importa assistir ao mesmo espectáculo em duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem.
Marco Aurélio (Imperador Romano), in "Pensamentos"
Publicado por pns em abril 30, 2004 11:23 AMNão se pode perder o que não se tem (Presente). Sim...(Consciência no Presente).
Mas podemos tudo fazer para perder (ou para não ganhar) o que poderemos ter ou vir a ter (Presente-Futuro).
O passado também pode ter sido perdido se nele entendermos vivências que não existiram. Ou porque não quizemos. Ou porque não nos foram possibilitadas. Por isso deu-se a perda.(Passado)
Assim sendo, entendo que "A Força do Presente" consiste precisamente nesta possibilidade de análise retrospectiva (e avaliativa do que foi/tem sido), mas também de consciencialização face ao momento (fugaz) que é o Presente e de algum controlo sobre o Futuro/vontade relativamente ao Futuro.
É, pois, a este nível, que as perdas e os ganhos de recordam, avaliam, sentem e projectam.
Sandra :)
O titulo "Força do presente" fui eu que o coloquei, para realçar a passagem do Marco Aurélio que diz "o que se perde surge como a perda de um segundo".
Ando agora numa passagem leiga por este tipo de pensamentos em gregos e romanos, pois admiro-me com a sabedoria que estes manifestam, provavelmente ensinariam muita coisa a muitas pessoas que andam agora por aí e pensam que sabem tudo.
O Marco Aurélio tem pensamentos interessantes, pode-se não concordar ou não concordar em parte com o que ele diz (não me estou a referir só a este, vou folheando o livro e lendo os que apanho pelo caminho), mas tem o mérito de me fazer pensar.
E vindo de alguém que viveu há 2000 anos, isto toca-me de uma forma especial, mostra-me que o progresso é algo extremamente relativo.
Afixado por: Paulo Silva em outubro 7, 2003 08:08 PMQuanto ao título por ti adoptado- e percebendo isso desde logo- foi, a meu ver muito bem conseguido.
Quanto à Cultura Clássica, em si, concordo absolutamente com o que dizes (escreves) e, por isso mesmo, penso ser muito importante haver uma recuperação constante que nada mais deve traduzir que o seu não esquecimento. E recuperação a nível global, por todos nós. Não por um ou outro nicho de leitores. A título de exemplo: as tragédias gregas. Que poderosas são e que mensagens importantes nos transmitem! A sua contemporaneidade é um facto. A sua qualidade quase que(-e aqui deixo espaço para as discordâncias resultantes do subjectivismo) inquestionável.
Sandra :))
Afixado por: Sandra em outubro 7, 2003 09:34 PMSem dúvida, Sandra.
Não sei se já disse, mas eu venho da área das ciências, pelo que tenho um handicap razoavelmente grande em termos de literatura. Embora tenha recuperado um pouco nestes ultimos 4 anos através de uma intensa leitura, sinto que tenho que fazer um "estágio" nos clássicos gregos e latinos... afinal, o meu "mestre" Vergílio Ferreira, diz que se deve começar por aí, e ir depois pelos séculos até chegarmos aos nossos dias. Pois muito do que é escrito hoje em dia não é propriamente novidade, muitas são variações de coisas já escritas, pelo que é importante fazer este percurso, para uma maior capacidade de contemplação e apreciação das obras literárias... enfim, fugi um pouco ao assunto, mas é isso, para justificar ;) o que digo.
Agora é necessário é ter disponibilidade para isso... veremos. Além destes livros de pensamentos, tenho que passar aos grandes meios - tenho a Odisseia ali na estante, para começar - tenho que pegar nele antes do fim do ano.