Porque é que a TV foi essa «caixinha que revolucionou o mundo»? Faço a pergunta e as respostas vêm em turbilhão. Fez de tudo um espectáculo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, isturado ao quotidiano doméstico. Porque mesmo um filme ou peça de teatro ou até um espectáculo desportivo perdem a grandeza e metafísica de um largo espaço de uma comunidade humana.
Já um acto religioso é muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV é algo de minúsculo e trivial como o sofá donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV é um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por lá chega até nós diminuído e desvalorizado no que lhe é essencial. E a maior razão disso não está nas reduzidas dimensões do ecrã, mas no facto de a «caixa revolucionadora» ser um objecto entre os objectos de uma sala.
Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se o da promoção do analfabetismo. Ser é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum. Ler exige a colaboração da memória, do entendimento e da imaginação.
A TV dispensa tudo. Uma simples frase como «o homem subiu a escada» exige a decifração de cada palavra, a relação das anteriores até se ler a última e a figuração do seu sentido e imagem correspondente. Mas na TV dá-se tudo de uma vez sem nós termos de trabalhar. Mas cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir. Mas ser homem simplesmente é muito trabalhoso. E o mais cómodo é ser suíno...
Vergílio Ferreira, in "Escrever"
Publicado por pns em maio 8, 2004 10:26 AMSem desprimor para os porcos, cada vez mais pensamos e posicionamo-nos como porcos. A televisão, sem dúvida, para isso tem contribuido. Mais: tem contribuido para que se perca ou esqueça a dignidade. A nossa dignidade. A dignidade de alguns: daqueles que se disponibilizam a perdê-la. Mas, atenção, não esqueçamos as vantagens e os ganhos decorrentes. Porque nem todos pensam ou se posicionam como porcos. Porque têm sentido crítico. Porque sabem escolher e seleccionar.
Imediatismo! Sim, sem dúvida. A História, cada vez mais, faz-se aqui e agora. Em directo. Antes mesmo das coisas acontecerem. Durante e depois de acontecerem. Deturpando. Deturpando também. Bastante. Consumo fácil. Consumo facilitado.
Face a isto o "Elogio do Livro", o "Elogio da Leitura"? Para o autor sim, porque faz pensar. Porque faz engrandecer. Para mim sim, porque também faz pensar e também faz engrandecer.
Mas também pode não dar trabalho. Também pode ser "pronto a consumir". Também pode ser imediato. Também pode ser..."light".
Assim proponho:
- "A TV como mais um instrumento redutor" (não "o", mas "um");
- "A TV como espaço de usufruto de cultura e de informação"
- "Elogio de livros" (não "Elogio "do" Livro")
Sandra
Agora trocaste-me as voltas, Sandra !! :))
Pois, a TV também pode ser vista de modo selectivo, assim como o livro também pode ser escolhido e lido como uma telenovela.
Sem dúvida! Claro que continua válido o pensamento do VF, só que se pode abstrair e generalizar para mais situações. Xeque-mate!
Afixado por: Paulo Silva em outubro 9, 2003 12:34 AMNum artigo da SciAm, que deve ter uns 2 anos, lia-se (e cito de cor) sobre os efeitos das adições "Compreender quando uma diversão está fora de controlo é um dos grandes desafios da vida." Isto é válido para a TV como para outras. Lodge, numa análise dentro do seu trabalho em literatura, refere o facto de o romance ter sido, por muito tempo, temido por afastar as pessoas da vida real já que ler implica "sair de si". Enfim :)
Afixado por: Maria M. em outubro 10, 2003 09:49 AMComplementando o que diz a Maria acrescento que quando a imprensa começou a ser utilizada na Europa, a Igreja viu isso como um sinal do Demónio. A cultura iria espalhar-se mais e mais rapidamente. Os livros iriam espalhar-se mais e mais rapidamente. Um perigo! Um perigo! Aqui a grande questão era, também, pôr-se as pessoas mais conhecedoras da vida real. Aquela que não interessava conhecer.
Sandra
Afixado por: Sandra em outubro 10, 2003 12:54 PM