Não são muitas as pessoas dotadas para a apreensão da Natureza e para a sua utilização imediata. A maior parte gosta de descobrir entre o conhecimento e a utilização uma espécie de castelo nas nuvens, que se entretêm a aperfeiçoar, esquecendo assim ao mesmo tempo o objecto e a respectiva utilização.
Do mesmo modo, não é fácil compreender-se que o que acontece nos grandes domínios da Natureza é o mesmo que sucede nos mais pequenos. Mas se a experiência o indica com premência, os indivíduos acabam por aceitar tal ideia de bom grado. Há um parentesco entre a atracção de fragmentos de palha por uma vareta de âmbar depois de friccionada e a mais terrível das tempestades. Em certo sentido são o mesmo fenómeno. E há outros casos em que não temos dificuldade em aceitar essa micromegalogia. Mas rapidamente somos abandonados pelo puro espírito da Natureza e apodera-se de nós o demónio do artifício, que sabe sempre insinuar-se em todos os campos.
Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"
Publicado por pns em outubro 8, 2003 09:29 PMQuando se coloca a questão da "Natureza" e do "Artifício" temos que saber muito bem o que são um e outro e onde acaba um e começa outro. Também é importante termos em conta complementos benéficos existentes: para o Homem e a favor do Homem.
O "Demónio do Artifício" significa o quê? Porque é que o artifício é ou pode ser adjectivado dessa forma? Não seremos nós os responsáveis por uma adulteração da Natureza naquele que é o seu estado, neste caso não puro, mas antes de evolução/adaptação/reorganização enriquecedora?
A atender, por outro lado, os campos imensos a que o artifício pode estender-se. E aqui tudo fica muito mais complexo pois deixamos de falar em "artifícios materiais" e passamos a falar de "artifícios espirituais".
Este pensamento de Goethe fez-me, pois pensar, nesta grande variedade ou possível variedade de questões. Sempre complexas e não menos inquietantes.
Sandra
Afixado por: Sandra em outubro 8, 2003 10:01 PM
A minha interpretação é demasiado simplista comparada com a tua (ver além daquilo que se lê ;) )...
A meu ver, muitas vezes as nossas mentes ou as mentes de muitas pessoas tendem a criar um "novelo" de linhas de raciocinio ou pensamento em situações que, sendo pragmáticos (e práticos) não o justificariam - mas é já o vicio de pensar sempre ou quase sempre da mesma forma em determinadas situações - onde também entram os chamados "tuneis da mente" (há um livro sobre isso).
Ou seja, ao longo da sua formação e experiência de vida, a pessoa cada vez mais cria o seu "universo" de pensamento, "moldando-o" à nossa maneira de pensar, daí o "Demónio do Artificio", que é esse novelo de maneiras particulares de pensar e racicionar de cada um.
Mas... sim, como tu questionas na tua resposta, esta questão tem mais ângulos por onde pode ser explorada
Afixado por: Paulo Silva em outubro 9, 2003 12:31 AM