outubro 18, 2003

O Ateu é Deus

Deus não existe (...) A salvação de todos consiste agora em provar essa ideia a toda a gente, percebes? Quem é que há-de prová-la? Eu! Não entendo como é que até agora um ateu podia saber que Deus não existe e não se suicidava logo. Reconhecer que Deus não existe e não reconhecer ao mesmo tempo que o próprio se tornou deus é um absurdo, pois de outra maneira suicidar-se-ia inevitavelmente. Se tu o reconheces, és um rei e não te matarás, mas viverás na maior glória. Mas só o primeiro a perceber isso é que deve inevitavelmente matar-se, senão o que é que principiaria e provaria?

Sou eu que me vou suicidar para iniciar e para provar. Ainda só sou deus sem querer e sofro porque tenho o DEVER de proclamar a minha própria vontade. Todos são infelizes porque todos têm medo de afirmar a sua vontade. Se o homem até hoje tem sido tão infeliz e tão pobre, é precisamente porque tem tido medo de afirmar o ponto capital da sua vontade, recorrendo a ela às escondidas como um jovem estudante.

Eu sou profundamente infeliz porque tenho medo profundamente. O medo é a maldição do homem... Mas hei-de proclamar a minha vontade, tenho o dever de crer que não creio. E serei salvo. Só isto salvará todos os homens e há-de transformá-los fisicamente, na geração seguinte; porque, no seu estado físico actual (reflecti nisso muito tempo), o homem não pode, de modo algum, passar sem o seu velho Deus.

Durante três anos procurei o atributo da minha divindade e achei-o: o atributo da minha divindade é a minha vontade, é o livre arbítrio. É com isso que posso manifestar sobre o ponto capital a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova. Porque é terrível! Mato-me para afirmar a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova.

Fiodor Dostoievski, in "Os Possessos" (discurso do personagem Kirilov)

Publicado por pns em outubro 18, 2003 02:57 PM
Comentários

este texto , na minha opnião, é ridiculo... leia os textos de minha URL.

Afixado por: Victor em julho 11, 2004 06:04 PM

Dostoiévski, é um dos maiores romancistas-filosófo de todos os tempos, através dele experimentamos o amargo sabor que anunciou a morte de Deus para que finalmente Nietzsche desse cabo a esse processo que foi iniciado com Copérnico, Kepler e Galileu. Até nossos dias, a afirmação de que o homem está lançado em um mundo onde não existe o "grande pai protetor", reparador de todos os males e fundamento primeiro e último de todas as ações humanas, provoca um choque aterrador. É duro saber que estamos despidos e sós, que saidos do útero da natureza estamos irremediavelmente ligados a ela, e que não há nada além e aquém que possa nos acolher ou nos castigar. O homem terá que ser ele mesmo seu Deus, o grande criador de valores. Epicuro 300 anos antes do nascimento do cristianismo em nossa civilização, já tinha fortaleza de espírito para lidar com um mundo sem deuses... É isso ai, então senta e chora! tanto faz....

Afixado por: maria Rosa em novembro 21, 2004 12:00 PM
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