novembro 11, 2003

O Artista é Maior que Deus

Como é bom escrever ao apelo incerto do que nos faz sinais. Como é fascinante escrever para saber o que é. Indeciso apelo, motivo que o não é, até se saber o que é. Trazê-lo à vida da sua nebulosa, captá-la na errância de uma inquieta procura. Obedecer ao impulso que sobe em nós em energia e movimentação, na necessidade de o realizar e ele coalhar em escrita, no irreal da sua realização. Estremecer ao aviso, persegui-lo até onde não sabemos o seu tudo, depois da surpresa do que lá estava.
Escrever é não saber para saber. Mas o que se sabe é frágil e há que procurá-lo até à eternidade. Porque o que se encontra é ainda a procura, o além de todo o aquém. E é porque nunca se encontra, que a arte continua. Assim o artista é maior do que Deus. Porque ele já tinha criado, antes de criar, e assim não teve surpresas. E quem escreve só no infinito realiza a sua criação e só aí as não terá.

Vergílio Ferreira, in "Pensar"

Publicado por pns em novembro 11, 2003 07:38 AM
Comentários

Partindo-se do princípio em que não se nega a existência da divindade, e atendendo ao que ela tem inerente ou imanente de Bom e de Belo, penso poder, de facto, aproximar-se o artista dessa divindade. Pensemos especificamente no escritor (onde se encontra, evidentemente, o poeta): não é o seu acto inequivocamente criador? Não tem ele todo o poder para conceber e fazer existir todas as suas criaturas (as palavras e, consequentemente, as frases)? Não tem ele a capacidade de vislumbrar com a sua criação? Não tem ele a capacidade de proporcionar o que é positivo a quem desfruta da sua obra?
Não atendendo aqui o lado mais "negro" que tal divindade pode assumir (e ai perturba e castiga), o artista pode assumir-se como um pequeno Deus. Para começar, claro. E esse começar é, inequivocamente o indício para aquilo que de maior e de mais pleno se pode tornar. Ultrapassando a divindade? Sendo maior do que Deus? Porque não?! Já que é constituído/composto por tudo aquilo que há de mais humano e porque, humanamente, anda, sente e vive por entre os homens. E neles busca inspiração. E neles de dissolve e a partir deles se engrandesse.

Sandra

Afixado por: Sandra em novembro 12, 2003 09:15 AM

"humanamente, anda, sente e vive por entre os homens. E neles busca inspiração. E neles de dissolve e a partir deles se engrandesse"

Excelente, Sandra, excelente.... para os mais cépticos (como eu), Deus é uma ideia humana... portanto, se o é, a qualquer outro humano, no limite, é possível fazer algo superior a esse Deus... não será ?

Afixado por: Paulo Silva em novembro 12, 2003 09:55 AM

Segundo alguns filósofos (Descartes, por exemplo), o Homem só pensa em Deus, porque Deus lhe deu essa possibilidade. E isto, por si só, é já fundamental para garantir a sua existência.
Portanto, criação humana, com a antecipada mão divina.

Mas voltando ao artista... não é qualquer um que é artista (salvo as falsas e reles imitações).
E por assim ser, há uma harmonia que vai sendo vivida com algo superior. Chamem-lhe o que quiserem. Sim! Chamem-lhe o que quiserem! Mas a capacidade de ir mais além do que o senso comum enjoativamente quotidiano e escandalosamente predominante, não pode deixar de ser considerado e destacado.
E aí a pessoa que é artista, diferencia-se. Distingue-se e chega a um estado ou estágio superior.
E é Homem e é Divindade.
E é Homem com a Divindade.
E é Homem junto à Divindade. E funde-se com a Divindade.
A a Divindade humaniza-se.
E a Divindade torna-se Homem.
E a Força, mais do que emergir, extravaza-se.
É. É. É.

Sandra

Afixado por: Sandra em novembro 12, 2003 10:54 AM
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