Toda a desilusão é para mim uma doença que certas circunstâncias podem tornar inevitável, é verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais rápidamente possível, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro não gosta; em que é que o último é superior ao primeiro? Não há nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta são bons, para quem não gosta são maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro não conhece; sobre este ponto, a sua vida é mais agradável e está melhor adaptado ao mundo onde ambos têm de viver.
O que é verdadeiro neste exemplo trivial é igualmente verdade nas questões mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol é sob esse aspecto supeior ao homem que não gosta. O que aprecia a leitura é ainda mais superior do que aquele que não a aprecia, pois as oportunidade de ler são mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem, mais ocasiões tem também de ser feliz e menos está á mercê do destino, pois se perder um pode recorrer a outro. A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias. Somos todos propensos à doença do introvertido que, perante o multiforme espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar somente o vazio dentro de si.
Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"
Publicado por pns em fevereiro 29, 2004 08:55 AMO exemplo do morango é válido, considendo que apreciar morangos "pode ser benefíco à saúde e pode proporcionar prazer, desde que dentro dos limites da moderação, pois tudo que é benéfico pode tornar-se maléfico se não for bem e razoavelmente utilizado". Esse exemplo do morango não pode ser generalizado à todas as coisas. Por exemplo: quem aprecia o tabaco faz mais mal a si mesmo que quem não o aprecia.
Quanto a afirmação de que "é bom que nos interessemos por tantas coisas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias", eu concordo, desde que preenchamos os nossos dias com atividades nobres, que nos elevem e nos engrandeçam, e não com qualquer passatempo vão.
Ainda sobre a afirmação "Somos todos propensos à doença do introvertido que, perante o multiforme espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar somente o vazio dentro de si", eu diria que devemos sim contemplar ao máximo o multiforme espetáculo da vida, enriquecendo as nossas experiências e conhecimentos, sem contudo deixar de fazer as necessárias pausas para contemplação interna, pois essas pausas nos fazem resumir e sintetizar aquilo que de bom apreciamos no mundo.
Afixado por: Roberto Zimerman em setembro 22, 2004 05:48 PM