setembro 16, 2009

Os Práticos e os Contemplativos

Têm sentido de humor os que têm sentido prático. Quem descuida a vida, embevecido numa ingénua contemplação (e todas as contemplações são ingénuas), não vê as coisas com desprendimento, dotadas de livre, complexo e contrastante movimento, que forma a essência da sua comicidade. O típico da contemplação é, pelo contrário, determo-nos no sentimento difuso e vivaz que surge em nós ao contacto com as coisas. É aqui que reside a desculpa dos contemplativos: vivem em contacto com as coisas e, necessariamente, não lhes sentem as singularidades e características; sentem-nas, pura e simplesmente.

Os práticos - paradoxo - vivem distantes das coisas, não as sentem, mas compreendem o mecanismo que as faz funcionar. E só ri de uma coisa quem está distante dela. Aqui está, implícita, uma tragédia: habituamo-nos a uma coisa afastando-nos dela, quer dizer, perdendo o interesse. Daqui, a corrida afanosa.
Naturalmente, de um modo geral, ninguém é contemplativo ou prático de forma total, mas, como nem tudo pode ser vivido, resta sempre, mesmo aos mais experimentados, o sentimento de qualquer coisa.

Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

Publicado por pns em setembro 16, 2009 04:39 PM
Comentários

Bom dia. Mais uma vez a dar uma voltinha pelas tuas citações e deixar registado que estive cá.
Um abraço.

Afixado por: eduardo em abril 17, 2004 08:42 AM

Obrigado. :))

Que tal estes novos excertos do Cesare Pavese ?

Afixado por: Paulo Silva em abril 17, 2004 02:05 PM

Excelentes!

Afixado por: Soledade em abril 19, 2004 06:11 PM
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