Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: «você, que é independente». Não sou assim; continuamente devo ceder a pequenas fórmulas sofisticadas que corrompem, que dão um sentido inverso à nossa orientação, que fazem com que a transparência do coração se turve. Continuamente a nossa insegurança, o egoísmo, o espírito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a espécie de circunstâncias que tomam o partido da vida como desfrute à sensação se sobrepõem à luz interior. Só a fé é independente. Só ela está para além do bem e do mal.
Estar para além do bem e do mal aplica-se a Cristo. «Perdoa ao teu inimigo, oferece a outra face» - disse Ele. Não é um conselho para humilhados, não é um preceito para mártires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religião de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experiência-limite, uma visão do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consciência foi saturada, para além do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo não o faz por contrariedade do seu instinto, por reparação dos seus pecados; mas porque não pode proceder de outra maneira.
A sua natureza simplificou-se; nada o pode abalar, porque ele desesperou para sempre da sua controvérsia e, possivelmente, da sua humanidade. A agonia do Homem é isto - a sua conversão à luz interior. Qualquer doutrina que professe a luta, seja doutrina social ou religiosa, impõe-se facilmente às massas, porque a luta bloqueia a evolução profunda do homem, a qual é motivo da sua angústia. Um sábio, grande figura bíblica, disse: «A causa do temor não é outra coisa senão a renúncia aos auxílios que procedem da reflexão». Ligados todos por uma igual cadeia de trevas, os homens julgam superar os factos por meio duma acção violenta. Dispersam os seus fantasmas prodigiosos durante algum tempo, mas logo são surpreendidos por inesperados terrores. A melhoria das suas condições de trabalho, o direito ao lazer e à cultura, a protecção à saúde e à velhice, tudo isso foi uma necessidade imposta pelos factos, mas só actua como lei se for manifestado pela reflexão. A doutrina perfeita nem ofende a multidão nem se arroja a seus pés. Não é feita de belas palavras nem dum folclore de atitudes. A natureza combate pelos justos. Essa natureza é a fé.
Agustina Bessa-Luís, in "Contemplação Carinhosa da Angústia"
Publicado por pns em maio 19, 2004 06:22 PMEis um texto difícil de ser comentado: se por um lado os infortúnios são causados pela renúncia aos auxílios que provem da reflexão, por outro tal reflexão, por vezes, carece de meios para promover a superação daquilo que prende o homem aos grilhões da vida mundana. Se tomarmos por referência a Suma Teológica, de Tomás de Aquino, veremos no homem um ser dotado de razão e, como tal, senhor das suas obrigações de seu tempo. A vida é, pois, instrumento. A fé na providência superior não pode nos fazer, portanto, o que é de dever ser realizado por cada um de nós, em âmbito individual. Se aqui estamos e temos consciência em uma causa primeira que nos possibilitou a existência como forma de criação e aprendizado, não devemos direcionar a confrontante tarefa de lutar pelos ideais caros ao espírito às esferas superiores. É até razoável pensar que essa é a intenção da natureza, se é que podemos atribuir esse caráter a ela. Não seria essa uma forma de negar a realidade em nome de um ideal? Então, por que estamos juntos? Trabalhemos, portanto, para termos condições de discernimento e força para pôr em prática aquilo que nos é posto a frente com forma de obstáculo. Avante!
Afixado por: Henrique Magalhães em maio 24, 2004 07:45 PMEis um texto difícil de ser comentado: se por um lado os infortúnios são causados pela renúncia aos auxílios que provem da reflexão, por outro tal reflexão, por vezes, carece de meios para promover a superação daquilo que prende o homem aos grilhões da vida mundana. Se tomarmos por referência a Suma Teológica, de Tomás de Aquino, veremos no homem um ser dotado de razão e, como tal, senhor das suas obrigações de seu tempo. A vida é, pois, instrumento. A fé na providência superior não pode nos fazer, portanto, o que é de dever ser realizado por cada um de nós, em âmbito individual. Se aqui estamos e temos consciência em uma causa primeira que nos possibilitou a existência como forma de criação e aprendizado, não devemos direcionar a confrontante tarefa de lutar pelos ideais caros ao espírito às esferas superiores. É até razoável pensar que essa é a intenção da natureza, se é que podemos atribuir esse caráter a ela. Não seria essa uma forma de negar a realidade em nome de um ideal? Então, por que estamos juntos? Trabalhemos, portanto, para termos condições de discernimento e força para pôr em prática aquilo que nos é posto a frente com forma de obstáculo. Avante!
Afixado por: Henrique Magalhães em maio 24, 2004 07:46 PM