Dos feitos, fica apenas a lembrança, que se torna cada vez mais fraca, deformada e indiferente e deve, aos poucos, apagar-se a não ser que a História a registe e a entregue à posteridade sob forma petrificada; ao passo que as obras elas próprias são imortais e podem, especialmente as escirtas, desafiar o tempo. De Alexandre o Grande vivem o nome e a lembrança; porém Platão e Aristóteles, Homero e Horácio ainda estão aqui eles próprios, a viver e a agir directamente.
Arthur Schopenhauer, in "Aforismos para a Filosofia"
Publicado por pns em maio 31, 2004 10:15 AMPensamento profundo e brilhante, este, de Schopenhauer, ao ressaltar a importância das obras que, na verdade, não desaparecem. Nem as boas nem as más. Podem passar pouco percebidas, por pouco "notórias", mas continuarão influindo na terra, após a morte de seu autor. Um trabalho bem feito -- o simples educar moralmente os filhos, por exemplo -- é uma obra que tem um longo alcance. Quantas pessoas, além dos próprios filhos,se beneficiarão com a conduta correta, incentivada pelos pais? O caráter bem formado causa admiração, é imitado, gerando mais honestidade em outras pessoas, até mesmo estranhos, tornando o mundo melhor. As vidas de grandes homens, já falecidos, inspiraram jovens para grandes feitos.Autênticas "obras póstumas" dos homens verdadeiramente grandes. Um obscuro educador pode alterar o mundo, através de seus aluno.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em maio 31, 2004 01:07 PMOs romancistas, escrevedores incontinentes, disparam sem cessar palavras contra a morte, como arqueiros empoleirados nas ameias de um castelo em ruínas. Mas o tempo é um dragão de pele impenetrável que tudo devora. Ninguém se lembrará da maior parte de nós dentro de alguns séculos, para todos os efeitos será como se nunca tívéssemos existido. O esquecimento total de quem nos precedeu é um manto pesado, é a derrota com que nascemos e em direcção à qual nos dirigimos. É o nosso pecado original.
Além de disparar palavras, a espécie procria contra a morte e aí temos de reconhecer que se obteve um exito relativo. Pelo menos não nos extinguimos ainda como os dinossauros e os nossos genes multiplicam-se sobre o planeta com abundância de praga. Talvez a sensação de imortalidade que sentimos quando amamos seja uma intuição do nosso triunfo orgânico; ou talvez seja apenas um truque genético da espécie, para nos induzir ao sexo e, portanto, à paternidade. Depois, os humanos, com essa abilidade tão nossa para complicar tudo, convertem a pulsão elementar de sobrevivência no delirio da paixão.
E quando nos apaixonamos loucamente, nos primeiros momentos da paixão, estamos tão cheios de vida que a morte não existe. Ao amar somos eternos. Da mesma forma, quando estamos a escrever um romnace, nos momentos de graça da criação do livro, sentimo-nos tão impregnados pela vida daquelas criaturas imaginárias, que o tempo, a decadência, ou a nossa própria mortalidade deixam de existir. Também somos eternos enquanto inventamos histórias. Escreve-se sempre contra a morte.
Rosa Montero, in A louca da casa
Afixado por: Maria José Cunha em junho 1, 2004 01:23 AM