Tendo estudado a sabedoria em livros traduzidos do grego, do chinês ou do sânscrito, tenho uma certa desvantagem em relação aos ignorantes que só aprenderam em jornais desportivos ou revistas de moda. Quando enfrento um assunto difícil cuja elucidação requer anos de reflexão, sinto-me intimidado com a consciência da minha insuficiência, que me trava os impulsos no momento em que eles, impelidos pelo propulsor da sua ignorãncia, estão seguros de ter encontrado, ainda antes de ter procurado. Como posso fazê-los compreender que tenho razão em não proclamar que a tenho, antes de dedicar tempo a demonstrar-lhes que estão errados? Não, eles não desistem. De resto, as minhas hesitações atraiçoam-me. A verdade é uma flecha que vai direita ao alvo. Os escrúpulos intelectuais são tremuras do espírito. Se visar mal, como posso atingir o alvo?
Apercebemo-nos de que a ignorância não exclui a firmeza de opinião. Existe até uma cumplicidade objectiva entre elas. Quanto menos sabem, mais ostentam, diz o profeta. A indigência intelectual tira partido do seu pretenso parentesco com a Verdade. Contudo, é preciso ser ingénuo para pensar que o saber liberta o espírito dessa lei de gravitação que faz com que todo o pensamento orbite em torno da Verdade. Quanto mais sabem, mais ostentam, diz também o profeta, desta vez nos dias ímpares. Ter razão é a pretensão mais universal e, provavelmente, a mais antiga.
Georges Picard, in "Pequeno Tratado para Uso Daqueles que Querem Ter Sempre Razão"
Publicado por pns em junho 2, 2004 02:01 PM
Interessante, como em tão poucas palavras conseguiu Gerog Picards, resumir um dos maiores problemas da humanidade " ter ou não ter razão", e um dos maiores geradores de conflito nas relações humanas. A única coisa que discordo é o facto de ele considerar uma desvantagem, saber mais que as pessoas que aprendem através de jornais e de revistas.. pois o conhecimento verdadeiro se assim pode se chamar, depende da profundidade do olhar em relação ao mundo e as coisas e sobretudo no tentar compreender o mundo como um todo e não como uma manta de retalhos a que estamos habituados a chamar de informação.
Quanta mais se sabe menos se sabe é a unica grande verdade. e a outra é que somos mortais.. e nunca escaparemos a morte, seja em que crença e em que estadio mental tenhamos atingido ao longo da vida, seja na caverna do platão ou na luz da sabedoria... somos todos mortais.. a pretensão intelectual é mais um adorno da nossa vaidade, um defeito da nossa humanidade, que acaba com a nossa propria morte e a nossa insignificancia perante a vida e as suas partidas.