junho 15, 2004

A Vaidade no Sofrimento

logb5.jpgHá ocasiões, em que contraímos a obrigação connosco, de não admitirmos alívio nas nossas mágoas, e nos armamos de rigor, e de aspereza contra tudo o que pode consolar-nos, como querendo, que a constância na pena nos justifique, e sirva de mostrar a injustiça da fortuna: parece-nos, que o ser firme a nossa dor, é prova de ser justa; esta ideia nos inspira a vaidade, menos cuidadosa no sossego do nosso ânimo, do que atenta em procurar a estimação dos homens. Uma grande pena admira-se, e respeita-se; é o que basta para que a vaidade nos faça persistir no sentimento.

Matias Aires, Filósofo, 1705-1764, in "Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna"

Publicado por pns em junho 15, 2004 09:09 AM
Comentários

Bem observado. Há quem goste do papel dramático de vítima. Concede uma aura de nobre sofrimento. Talvez a única forma de ser notado. Nelso Rodrigues, em uma crônica, descreve o "sofrimento" espalhafatoso e grotesco de uma viúva gorda que, aos berros, se joga sobre o caixão do marido no momento em que o esquife desce na cova. Uma mistura de dor e espetáculo. Como se, vendo a "montada" de caubói, a alma do defunto pudesse dizer orgulhosa: "Aquela mulher realmente me amava..."

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em junho 16, 2004 02:49 PM
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