março 25, 2010

A Cólera dos Bondosos e a Cólera das Almas Fracas

Podemos distinguir duas espécies de cólera: uma que é muito súbita e se manifesta muito no exterior, mas mesmo assim tem pouco efeito e pode facilmente ser apaziguada; e outra que inicialmente não aparece tanto, porém corrói mais o coração e tem efeitos mais perigosos. Os que têm muita bondade e muito amor são mais sujeitos à primeira. Pois ela não provém de um ódio profundo, e sim de uma súbita aversão que os surpreende, porque, sendo levados a imaginar que as coisas devem desenrolar-se da forma como julgam ser a melhor, tão logo acontece de forma diferente; eles ficam admirados e frequentemente se ofendem com isso, mesmo que a coisa não os atinja pessoalmente, porque, tendo muita afeição, interessam-se por aqueles a quem amam, da mesma forma que por si mesmos. Assim, o que para outra pessoa seria apenas motivo de indignação é para eles um motivo de cólera. E como a inclinação que têm para amar faz que tenham muito calor e muito sangue no coração, a aversão que os surpreende não pode impelir para este tão pouca bile que isso não cause inicialmente uma grande emoção no sangue. Mas tal emoção pouco dura, porque a força da surpresa não se prolonga e porque, tão logo percebem que o motivo que os contrariou não devia emocioná-los tanto, arrependem-se disso.

A outra espécie de cólera, em que predominam o ódio e a tristeza, não é tão aparente no início, a não ser talvez fazendo o rosto empalidecer. Mas pouco a pouco a sua força é aumentada pela agitação que um ardente desejo de vingar-se excita no sangue, que, estando misturado com a bile que é impelida da parte inferior do fígado e do baço para o coração, excita nele um calor muito áspero e muito picante. E, assim como as almas mais generosas são as que sentem mais reconhecimento, assim as que têm mais orgulho, e que são mais baixas e mais fracas, são as que mais se deixam arrebatar por essa espécie de cólera; pois as injúrias parecem tanto maiores quanto mais o orgullho faz que nos estimemos; e também na medida em que mais estimamos os bens que elas arrrebatam, os quais tanto mais estimamos quanto mais fraca e mais baixa tivermos a alma, porque eles dependem de outrem.

René Descartes, in 'As Paixões da Alma'

Publicado por pns em março 25, 2010 09:39 PM
Comentários

Descartes tem, de modo geral, razão. Conhecemos o "italianozão", touro autêntico, franco, vozeirão, estourando quando provocado, mas no fundo um homem bom e sentimental, fácil para reconciliar. E temos a víbora silenciosa, que não esquece nunca um agravo. Mas temos também misturas infindáveis dos dois tipos, ou superposições totais de estouro e veneno. O venenoso pode, por vezes, se justificar porque, sendo fraco, não tinha condições de enfrentar os chifres e os cascos, daí o veneno. E o "bondoso" temperamental também às vezes abusa conscientemente da sua força e tamanho. O ideal é cada um esforçar-se para não ser nem o intragável touro berrante, nem a cobra venenosa, respeitando os demais e não guardando rancor.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em junho 21, 2004 03:50 AM

Pode-se encontrar a mesma reflexão em Dostoievski.

Apareçam no albertovelasquez.blogspot.com

Há lá poesia influenciada por este e outros autores.

Afixado por: Velasquez em junho 26, 2004 12:21 AM
Site Meter