A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. A primeira diz à segunda: «Não me levas à certa; sei como te comportas, sigo-te e prevejo-te, gozo até ao ver-te agir, e roubo-te o segredo ao recriar-te em hábeis construções que travam o teu fluxo.» À parte este jogo, a outra defesa contra as coisas é o silêncio em que nos recolhemos antes de dar o salto. Mas é preciso que sejamos nós a escolhê-lo, e não deixar que no-lo imponham. Nem mesmo a morte. Escolhermos um mal é a única defesa contra esse mal. Isto significa aceitar o sofrimento. Não resignação, mas força. Digerir o mal de uma só vez. Têm vantagem os que, por índole, sabem sofrer de um modo impetuoso e total: assim se desarma o sofrimento e o transformamos em criação, escolha, resignação. Justificação do suicídio.
Aqui não há lugar para a Caridade. Ou não será talvez a verdadeira caridade esta projecção violenta de si próprio?
Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'
Publicado por pns em junho 23, 2004 05:23 PMAutor difícil de penetrar, devido ao subjetivismo excessivo. Encara como revide o fato, por exemplo, de prevermos que o câncer incurável vai nos matar. Acha que com essa nossa previsão o câncer vai ficar chateado, frustrado, porque ele queria nos surpreender, o que não deixamos acontecer. Triste consolo, o nosso...Na verdade o câncer só come,não pensa nada, com perdão pelo realismo. E o autor vê o suicídio com simpatia, porque fica nas nossas mãos acabar com o sofrimento. O problema é que o Cristianimo proíbe essa saída prática. Entre sofrer um pouco mais na Terra, ou queimar eternamente, o cristão acha mais garantido, embora doloroso, esperar a sua hora.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em junho 23, 2004 10:38 PM