julho 05, 2004

O Meu Carácter

Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.

Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.

O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção - enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.

Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.

Fernando Pessoa, in "Notas Autobiográficas e de Autognose"

Publicado por pns em julho 5, 2004 09:20 AM
Comentários

Pela amostra,F.Pessoa demonstra a profundidade de seu criativo turbilhão interio, que soube aproveitar como homem de letras. Todavia, há muita gente com características assemelhadas e que não escreve - apesar de querê-lo - por imaginar, errôneamente, que esse "turbilhão" é um empecilho. Não é. Para criar o mundo Deus precisou de duas etapas: primeiro, criou o "caos",depois o "ordenou". Assim devem fazer os aspirantes às letras: jogar no papél, sem crítica, o que sai do "turbilhão" e depois, pacientemente e com muita auto-crítica,"ordenar' o "caos", cortando e acrescentando. Essa a receita. Experimente.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em julho 5, 2004 02:37 PM

Realmente, srº Francisco, às vezes penso que este turbilhão não passa de um empecilho na minha vida; é qualquer coisa que me atormenta. Vivo de pensar, de pensamentos sem nexo, ou apenas sem importância; é o pensar incessante de que fala Fernando Pessoa. E sim, passo muitas vezes para o papel aquilo que me vai no espirito, na mente...mas tantas vezes o faço consciente de que o que escrevo não tem valor nenhum. Talvez seja a minha auto critica exacerbada, ou simplesmente falta de capacidade para organizar este turbilhão...

Afixado por: Rakel em julho 6, 2004 06:43 PM
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