julho 07, 2004

Aprender a Escrita pela Leitura

Ao lermos um autor, não temos a capacidade de adquirir as suas eventuais qualidades, como o poder de convencimento, a riqueza de imagens, o dom da comparação, a ousadia, ou o amargor, ou a concisão, ou a graça, ou a leveza da expressão, ou o espírito arguto, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade e outras semelhantes. No entanto, podemos evocar em nós mesmos tais qualidades, tornarmo-nos conscientes da sua existência, caso já tenhamos alguma predisposição para elas, ou seja, caso as tenhamos potentia; podemos ver o que é possível fazer com elas, podemos sentir-nos confirmados na nossa tendência, ou melhor, encorajados a empregar tais qualidades; com base em exemplos, podemos julgar o efeito da sua aplicação e assim aprender o seu uso correcto; somente então as possuímos também actu.
Esta é, portanto, a única maneira na qual a leitura nos torna aptos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer dos nossos próprios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a existência destes. Por outro lado, sem esses dons, não aprendemos nada com a leitura, excepto a maneira fria e morta, e tornamo-nos imitadores banais.

Arthur Schopenhauer, in 'Da Leitura e dos Livros'

Publicado por pns em julho 7, 2004 06:49 PM
Comentários

Grandes escritores foram, primeiro, grandes leitores.Ao contrário de Schopenhauer, penso que adquirimos, realmente, suas qualidades, desde que os leiamos com frequência, entendendo bem o que lemos. Isso, porque todos têm os tais "dons naturais", embora em graus variáveis. Feito esse aprendizado básico, resta ousar. Escrever o que realmente,pensamos e sentimos, sem medo. Felizmente, nossa memória é fraca. Graças a essa providencial fragilidade e às idiossincrasias escapamos da órbita de atração dos grandes mestres,isto é, livramo-nos do plágio.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em julho 7, 2004 10:56 PM
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