julho 13, 2004

Encontro-me em Plena Posse das Leis Fundamentais da Arte Literária

Deixei para trás o hábito de ler. Já nada leio a não ser um ou outro jornal, literatura ligeira e ocasionalmente livros técnicos relacionados com o que porventura estudo e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente.
O género definido de literatura quase o abandonei. Poderia lê-lo para aprender ou por gosto. Mas nada tenho a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é do género que pode ser substituído com proveito pelo que me pode proporcionar directamente o contacto com a natureza e a observação da vida.
Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare já não me pode ensinar a ser subtil, nem Milton a ser completo. O meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance tais que me permitem assumir qualquer emoção que deseje e penetrar à vontade em qualquer estado de espírito. Quanto àquilo por que sempre se luta com esforço e angústia, ser-se completo, não há livro que valha.

Isto não significa que eu tenha sacudido a tirania da arte literária. Aceito-a apenas sujeita a mim próprio.
Há um livro de que ando sempre acompanhado - «As Aventuras de Pickwick». Li várias vezes os livros de Mr. W. W. Jacobs. O declínio do romance policial fechou para sempre uma das minhas portas de acesso à literatura moderna.
Deixei de me interessar por pessoas que são apenas inteligentes - Wells, Chesterton, Shaw. As ideias desta gente são das que ocorrem a muitos que não são escritores; a construção das suas obras é inteiramente um valor negativo.
Tempo houve em que eu lia apenas pela utilidade da leitura, mas agora compreendo que há pouquíssimos livros úteis, mesmo os que versam assuntos técnicos que me possam interessar.
Todos os meus livros são de consulta. Leio Shakespeare apenas em relação com o «Problema de Shakespeare»; o resto já o sei.
Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar com os meus próprios sonhos?

Fernando Pessoa, in 'Notas Autobiográficas e de Autognose'

Publicado por pns em julho 13, 2004 09:23 AM
Comentários

Em um autor qualquer as palavras acima significariam pomposo convencimento. Não, ditas por F. Pessoa. O fato lembra o que disse H. Kissinger, numa reunião social. Uma moça lhe perguntou se já lera determinado livro, recentemente lançado. Ele respondeu: " Moça, eu não leio livros. Eu os escrevo". F.Pessoa passou a dispensar os livros porque já lera o suficiente. E os autores se copiam e repetem muito. Quem quiser ler tudo antes de escrever, morre frustrado, porque não leu tudo e nada ecreveu.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em julho 13, 2004 03:20 PM

"Há um livro de que ando sempre acompanhado - «As Aventuras de Pickwick"
este livro é de Charles Dickens

Afixado por: alexnietzsche em julho 15, 2004 03:11 PM
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