julho 25, 2004

Regras Essenciais para uma Boa Amizade

Os homens assemelham-se às crianças, que adquirem maus costumes quando mimadas; por isso, não se deve ser muito condescendente e amável com ninguém. Do mesmo modo como, via de regra, não se perderá um amigo por lhe negar um empréstimo, mas muito facilmente por lhe conceder, também não se perderá nenhum amigo por conta de um tratamento orgulhoso e um pouco negligente, mas amiúde em virtude de excessiva amabilidade e solicitude, que fazem com que ele se torne insuportável, o que então produz a ruptura. Mas é sobretudo o pensamento de que precisamos das pessoas que lhes é absolutamente insuportável: petulância e presunção são as consequências inevitáveis.

Em algumas, tal pensamento origina-se em certo grau já pelo facto de nos relacionarmos ou conversarmos frequentemente com elas de uma maneira confidencial; de imediato, pensarão que nós também devemos ter paciência com eles e tentarão ampliar os limites da polidez. Eis porque tão poucos indivíduos se prestam a uma convivência íntima; desse modo, temos de evitar qualquer familiaridade com naturezas de nível inferior.

Contudo, se esse indivíduo imaginar que é mais necessário a nós do que nós a ele, terá como sensação imediata a impressão de que lhe roubamos algo. Tentará então vingar-se e reaver os seus pertences. O único modo de desenvolver a superioridade na convivência com os outros é não precisar deles de maneira alguma e fazê-los perceber isso. Consequentemente, é aconselhável fazer sentir de tempos em tempos a qualquer um, homem ou mulher, que podemos muito bem passar sem ele. Isso fortalece a amizade.

Para a maioria das pessoas, não é prejudicial se, de vez em quando, adicionarmos uma pitada de desdém na nossa atitude para com elas. Atribuirão tanto mais valor à nossa amizade: Chi non estima vien stimato [Quem não estima é estimado], diz um fino ditado italiano. Se, todavia, alguém nos é de facto muito valioso, devemos ocultar-lhe essa conduta como se fosse um crime. Ora, semelhante atitude não é agradável, mas é verdadeira. Os cães quase não suportam uma amizade excessiva; os homens, menos ainda.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Publicado por pns em julho 25, 2004 10:04 AM
Comentários

O que Schopenhauer diz é triste, mas verdadeiro. Não bajule ninguém. Sérá mal interpretado. Todavia, não é seguro dizer, como o filósofo, que não se perderá um amigo por se lhe negar um empréstimo. Quase sempre perderá. Se emprestar, talvez também perca ( ele fica com raiva do fato de ter precisado de você), mas pode acontecer de ficar muito reconhecido. Acontece. No Brasil, os revoltosos contra a ditadura militar, presos, pararam de dar presentes aos reclusos não políticos. Pararam, porque os bandidos ficavam pensando que os presos políticos, agradando, só poderiam ser homossexuais em busca de parceiros.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em julho 26, 2004 03:21 PM

Schopenhauer citou apenas as pessoas normais,pessoas que vivem a vida instintivamente.Os sentimentos ruins estão sempre presentes em seus atos.Se o amigo que precisa de um empréstimo chateia-se com o outro que lhe empresta o dinheiro é pq simplesmente não consegue admirar a felicidade de quem ama(ou melhor,de quem pensa amar).

Afixado por: Danielle em agosto 1, 2004 06:29 AM

Amizade você pode encontrar num barzinho, numa sala de espera, numa fila de bilheteria de cinema, mas um amigo você reconhece e tece no dia-a dia uma relação de intimidade.Esta relação é difícil de ser construída pois é aí que deve-se ter todo cuidado para que não se comenter excessos.Nada de sugarmos o amigo, deixemo-lo à vontade para nos procurar ou se afastar pois assim, talvez, sedimentaremos um terreno fértil para o amigo livremente caminhar.

Afixado por: corcyra saboya em agosto 2, 2004 08:48 PM

Amizade você pode encontrar num barzinho, numa sala de espera, numa fila de bilheteria de cinema, mas um amigo você reconhece e tece no dia-a dia uma relação de intimidade.Esta relação é difícil de ser construída pois é aí que deve-se ter todo cuidado para não se comenter excessos.Nada de sugarmos o amigo, deixemo-lo à vontade para nos procurar ou se afastar pois assim, talvez, sedimentaremos um terreno fértil para o amigo livremente caminhar.

Afixado por: corcyra saboya em agosto 2, 2004 08:50 PM
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