As naturezas das pessoas não são todas iguais; para muitas, uma conclusão lógica transforma-se às vezes num sentimento fortíssimo que domina todo o seu ser e que é muito difícil de expulsar ou transformar. Para curar uma pessoa assim, é preciso modificar tal sentimento, o que apenas é possível substituindo-o por outro, de força igual. Isso é sempre difícil e, em muitos casos, impossível.
Fiodor Dostoievski, in 'O Adolescente'
Publicado por pns em agosto 27, 2004 04:41 PMPara os que se apegam fortemente à uma "conclusão lógica", gerando um "sentimento fortíssimo",só há um jeito de mudar esse sentimento: procurando argumentos poderosos que alterem seu modo de pensar. Se a conclusão lógica for alterada, seu sentimento também mudará, em consequência. A menos que ele não seja coerente com ele mesmo. Inútil, portanto,com pessoas assim,tentar modificar seu sentimento. É preciso trabalhar com o que vem antes: suas idéias. Provavelmente foi isso o que quis dizer o grande autor.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em agosto 27, 2004 09:57 PMUma mente obcessiva é muito difícil de condicionar.
Afixado por: JESO em agosto 27, 2004 10:46 PMCongratulações a concisa,porém (como o ilustre citara) impossível razão de Dostoievski!
Embora a lógica se apegue aos sentimentos, há um persistente retorno ao passado insatisfeito,na busca do "estar" feliz,lembranças, que se mesclam ao caráter mais forte da racionalidade do mundo quase impossibilitando tal desmerecer. Eis a natureza humana e o seu grave desfecho;no universo de existências,onde TUDO é POSSÌVEL! Por ironia,a própria ciência,em parte,é responsável por isto.
O sentimento não deve ser modificado, mas extinto. O sentimento sempre obstrui a razão. O homem não é, ou ao menos não deveria ser, sentimental. Animais(e temos que abandonar também esta infeliz idéia de que o homem é um animal!) possuem sentimentos. Não há nada de sublime nisto! Ao concluir algo e se deixar ser acometido por uma besta empolgação a pessoa se estanca - daquele ponto não passa. Nestas condições se torna impossível desenvolver o raciocínio, melhor fundamentá-lo, o que é uma questão bastante pertinente quando não se nasce no Tibet, ou Nepal, enfim, em lugares onde se é possível viver em paz, longe deste enorme bando de trogloditas famintos. Pois na vida social existe o tal do consenso - aquilo que nos faz caminhar juntos! E todo raciocínio deve sair completamente do preguento campo das intuições para que seja integralmente compreendido por nossos semelhantes - que ainda não reaprenderam a se comunicar pela telepatia e vivem escravos do pensamento verbalizado -, e isso apenas se dá quando fundamentamos caprichosamente - pois comunicação é aquilo que o outro está ouvindo! - aquilo que queremos dizer; aquilo que concluímos através do raciocínio lógico.
Resumindo:o sentimento não deve ser substituído por outro de mesma intensidade, como sugere Dostoiévski: é trocar seis por meia dúzia. Pelo contrário, deve ser extinto. Trancendamos o sentimento! Ou, se se considerar a ataraxia como sentimento, sejamos neste campo grandes sentimentais. Pois a ataraxia, que se caracteriza como total imperturbabilidade, pode ser considerada, apenas para efeito de graça, como o sentimento caracterizado como a total ausência de sentimentos. O que de forma alguma quer dizer que o ataráxico seja um tremendo de um insensível; não! de forma alguma! pois os sentimentos nos são intrínsecos enquanto significativa fase de nossa evolução. Eles sempre irão existir. Mas que quer dizer que o ataráxico, enquanto observador da vida, pôde concluir que em muito tais insanidades o atrapalharam a agir conforme a natureza de sua alma racional. E quando se contraria a própria natureza, meu amigo...Que quer dizer que o ataráxico simplesmente deixou de "dar corda" aos sentimentos em prol da verdade racional. Que abriu mão de seu direito de viver intensamente, em prol de seu desejo de viver verdadeiramente, o que só pode ser conquistado através da contemplação búdica, já inobstruída por nossas insanidades, como a exaltação sentimental.