setembro 13, 2004

Quando Falo com Sinceridade não sei com que Sinceridade Falo

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpétuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

Fernando Pessoa, in 'Para a Explicação da Heteronímia'

Publicado por pns em setembro 13, 2004 09:06 AM
Comentários

É do mais alto grau de sensibilidade que o extraordinário, e avantajado Fernando Pessoa tece a sua reflexão. Como ser sincero em algo se ao menos não temos essa realidade para com nós?
Somos exatamente o que o digníssimo disse:"uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço." e isso sintetiza a diversidade nos atos humanos e suas alternâncias como forma de aprendizado futuro.
Não podemos afirmar aquilo que não conhecemos,ou seja,isto a que compomos.
Sejamos ao menos consentâneos com esta realidade...difícil...Impossível?

Afixado por: Phil em setembro 13, 2004 06:09 PM

Realmente, é impressionante como certos seres - e que SER este que nos escreve - são verdadeiros intérpretes da vida..das sensações...da multiplicidade dos sentimentos contraditórios de inúmeros eus... inúmeros mundos que se fundem em um só.

Afixado por: Rebeca em setembro 16, 2004 02:02 AM
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