setembro 14, 2004

A Inteligência e o Sentido Moral

A inteligência é quase inútil para aqueles que só a possuem a ela. O intelectual puro é um ser incompleto, infeliz, pois é incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as relações das coisas só é fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o raciocínio, a imaginação e uma certa força orgânica. Só é utilizável à custa de esforço.

Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo. O pensamento só cresce naqueles que são capazes de amor e de ódio. Exige, portanto, para além da ajuda das outras actividades da consciência, a do corpo. Mesmo quando escala os degraus mais elevados e se ilumina de intuição e de imaginação criativa, precisa de uma armadura tanto moral como orgânica.

O desenvolvimento exclusivo das actividades afectivas, estéticas ou místicas produz homens inferiores, espíritos mesquinhos, estreitos, visionários. Observamos muitas vezes exemplos destes, embora hoje todos disponham de educação intelectual. Não é necessária uma grande cultura da inteligência para fecundar o sentido estético e o sentido místico e produzir artistas, poetas, religiosos, todos aqueles que contemplam desinteressadamente os diversos aspectos da beleza.

Acontece o mesmo com o sentido moral e o raciocínio. Mas estas actividades quase se bastam a si mesmas. Conferem àquele que as possui aptidão para a felicidade. Parecem fortalecer todas as outras actividades, mesmo as actividades orgânicas. Na educação, devemos ter essencialmente em conta o seu desenvolvimento, pois asseguram o equilíbrio do indivíduo. Constituem um elemento sólido do edifício social. Para os membros anónimos das grandes nações, o sentido moral é muito mais importante do que a inteligência.

Alexis Carrel, in 'O Homem esse Desconhecido'

Publicado por pns em setembro 14, 2004 01:50 PM
Comentários

Carrel era um homem a seu tempo,onde a moral ainda valia algo mais.Nos dias atuais,pouco(ou nada)se sabe sobre tal conceito. Estamos em um período da história humana de conturbações de idéias,onde moral e outros conceitos que até ontem conhecíamos, não mais são guias do homem,mas algo novo...cintila no horizonte.Algo grande em seus idealismos, e pequenos em suas influências prematuras...que não consumam mais vidas,apenas peço isso...

Afixado por: Phil em setembro 15, 2004 04:12 AM

Carrel e "Phil" têm razão.Para uma nação, mais importa a moral(autêntica) que a pura inteligência. Pilantras de alto Q.I. abundam em todas as atividades. A honestidade intelectual é muito mais rara que a honestidade apenas em assuntos de dinheiro. A parte "orgânica", referida por Carrel, seria a coragem, até mesmo física, de dizer a verdade e não recuar. W. Churchill dizia que sem a coragem todas as demais virtudes ficavam inúteis, porque não utilizadas, em razão do mêdo.

Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em setembro 15, 2004 02:30 PM
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