setembro 15, 2004

Culpabilidade

O estado de pecado no homem não é um facto, senão apenas a interpretação de um facto, a saber: de um mal-estar fisiológico, considerado sob o ponto de vista moral e religioso. O sentir-se alguém «culpado» e «pecador», não prova que na realidade o esteja, como sentir-se alguém bem não prova que na realidade esteja bem. Recordem-se os famosos processos de bruxaria; naquela época os juízes mais humanos acreditavam que havia culpabilidade; as bruxas também acreditavam; contudo, a culpabilidade não existia.

Friedrich Nietzsche, in 'Genealogia da Moral'

Publicado por pns em setembro 15, 2004 09:43 AM
Comentários

A sensação de "culpa" tem sido uma "técnica" amplamente utilizada por aproveitadores de todos os gêneros.Mesmo na "guerra conjugal", é comum o cônjuge ressentido tentar construir uma carga de culpa na consciência do outro.Se achar um papel comprometedor no bolso do marido, a esposa pode até sentir algum ciúme, mas sente principalmente enorme alegria, por saber que a alma do marido ficou subjugada, "desceu", permitindo a ela, esposa, "subir" para um nível mais alto. No ambiente de trabalho, na política e nas religiões são comuns tais formas de chantagem emocional, embora nem tudo seja chantagem. O inferno dos outros por vezes é nosso paraíso.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em setembro 15, 2004 01:31 PM

Francisco Rodrigues:
Achei o seu comentário muito interessante, parabéns.

Afixado por: Travassos em setembro 15, 2004 05:01 PM


Interessante observar a visão de Nietzsche sobre a culpa e moral.Sob o ponto de vista do direito a culpa se diferencia do dolo,este quando alguém faz algo intencional e aquele quando pratica alguma atitude que resultou em um fato, de forma imprudente, negligente e sem perícia.Mas, a análise de Francisco é sem dúvida a melhor , pois se refere as relações humanas tão difíceis de se desenvolverem.

Afixado por: corcyra saboya em setembro 15, 2004 08:54 PM

Bela observação sua, Francisco Rodrigues.
Realmente há em todo o relacionamento humano um maniqueísmo presente em todas as circunstâncias.
Quero apenas adicionar algo ao escrito:tudo é construído à partir da desconstrução, onde "o inferno dos outros é o nosso paraíso".
Vivemos constantemente o imperalismo (conquistador X conquistado)muito antes daquele período explicitado nos livros de História.
Isto istá impregnado na essência humana, sendo a culpa o modo mais condizente de promover uma certa consciência benévola perante algo - surgindo como consequência e não causa desse processo - motivado pelo medo ou convenções sociais...

Afixado por: Phil em setembro 16, 2004 03:19 AM

O comentário do Francisco é muito interessante. Gostaria apenas deixar duas reflexões sobre a questão do sentimento de culpa. A primeira diz respeito àquele que considero o maior legado da história da humanidade no que concerne a artificialização da culpabilidade - a religião (não confundamos com espiritualidade), muito em especial as de origem judaico/cristã. A segunda, indo ao encontro de uma observação feita pelo Francisco, se refere às relações conjugais (num sentido lato) que, camufladas pelo "amor", se manifestam muitas vezes pela disputa surda pelo poder ético/moral (e aqui entra a culpabilidade) dos parceiros na relação como factor destabilizador da entrega da cada no respeito pela sua individualidade.

Afixado por: Paulo R. em setembro 27, 2004 06:04 PM
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