Quando te encontras na base de um importante maciço montanhoso, estás longe de conhecer toda a sua diversidade, não tens nenhuma ideia das alturas que se ergueram por trás do seu cimo ou por trás daquele que te parece ser o cimo, não suspeitas nem o perigo dos abismos nem os confortáveis assentos ocultos entre os rochedos. É apenas se sobes e se persegues o teu caminho que se revelam pouco a pouco a teus olhos os segredos da montanha, alguns que esperavas, outros que te surpreendem, uns essenciais, outros insignificantes, tudo isso sempre e unicamente em função da direcção que tomares; e nunca te revelarão todas.
O mesmo acontece quando te encontras diante de uma alma humana.
Aquilo que se te oferece ao primeiro olhar, por mais perto que estejas, está longe de ser a verdade e certamente nunca é toda a verdade. É apenas no decurso do caminho, quando os teus olhos se tornam mais penetrantes e nenhuma bruma perturba o teu olhar, que a natureza íntima dessa alma se revela a pouco a pouco e sempre por fragmentos. Aqui é a mesma coisa: à medida que te afastas da zona explorada, toda a diversidade que encontraste no caminho se esbate como um sonho, e quando te voltas uma última vez antes de te afastares, vês apenas de novo esse maciço que te surgia falsamente como muito simples, e esse cimo que não era o único que existia.
Apenas a direcção é realidade; o objectivo é sempre ficção, mesmo quando alcançado - sobretudo neste caso.
Arthur Schnitzler, in 'Observação do Homem'
Publicado por pns em setembro 16, 2004 05:29 PMO autor, romancista com forte pendor filosófico, reuniu profundidade e beleza. É por isso que costumo não julgar e condenar rapidamente as pessoas. Nunca se conhece a coleção de pequenos diabinhos - e "diabões" -que atormentam o físico e a alma delas. Por outro lado, um responsável pela seleção de candidatos a um emprego ficaria louco se pensasse demais sobre o potencial dos interessados ( melhor dizer "necessitados"). Acabaria escolhendo todos,e por isso seria demitido.E como juiz criminal sua tarefa seria ainda mais penosa: absolveria quase todos os réus e ainda adquiriria uma bela coleção de úlceras. Sem uma certa ignorância é impossível trabalhar.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em setembro 17, 2004 12:36 PMConheço por experiência própria a natureza da inveja dos outros. Também me sinto mais forte quanto maior é a inveja mesquinha.
Afixado por: Pedra em setembro 17, 2004 12:50 PMConheço por experiência própria a natureza da inveja dos outros. Também me sinto mais forte quanto maior é a inveja mesquinha.
Afixado por: Pedra em setembro 17, 2004 12:51 PM