O crescimento da comunidade frutifica no indivíduo um interesse novo que o aparta da sua pena pessoal, da sua aversão à sua própria pessoa. Todos os doentes aspiram instintivamente a organizar-se em rebanhos, o sacerdote ascético adivinha este instinto e alenta-os onde quer que haja rebanhos, o instinto de fraqueza forma-os, a habilidade do sacerdote organiza-os. Não nos enganemos: os fortes aspiram a separar-se e os fracos a unir-se; se os primeiros se reúnem, é para uma acção agressiva comum, que repugna muito à consciência de cada qual; pelo contrário, os últimos unem-se pelo prazer que acham em unir-se; porque isto satisfaz o seu instinto, assim como irrita o instinto dos fortes. Toda a oligarquia envolve o desejo da tirania; treme continuamente por causa do esforço que cada um dos indivíduos tem que fazer para dominar este desejo.
Friedrich Nietzsche, in 'Genealogia da Moral'
Publicado por pns em setembro 22, 2004 10:00 AMNietzsche apontou bem as diferenças. Os fracos unem-se porque acreditam que a união faz a força. Os que se acham fortes dispensam a união para obter algo que já têm. Visando, porém, mais alto, agem como fracos, unido-se a outros fortes como eles. Um "classe média", que já foi pobre, tende a se afastar das antigas relações, aproximando-se dos ricos. Estes, desconfiados, preferem não muita aproximação, mas se tentam penetrar no seleto clube dos milionários, também se unem, mesmo a contragosto. Assim tropeça, digo, caminha a nobre humanidade, impulsionada pelo combustível da vaidade.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em setembro 22, 2004 01:00 PMÉ interessante ver no ser humano que este tal combustível é feito a partir do medo e de sentimentos próprios,algo a que não se mede e que aparece como que imprevisível.Jaz sempre a questão:"Será que diante de tudo isso, posso me sentir autônomo e seguro,agindo com meu próprio imperalismo?"O gênio humano sofre constantes modificações,ninguém está unipotente em algo.Resta a consciência e tais sentimentos para levar-nos à razão da realidade.
Afixado por: Phil em setembro 23, 2004 02:14 AMOs fortes só são fortes na presença de fracos, tornando-se fracos na presença de alguém mais forte do que eles. Este é o verdadeiro motivo pelo qual se evitam "unir", na medida em que tal originaria tensões devido à tentativa que todos inevitavelmente fariam para atingir a supermacia. Ora essa supermacia seria, também inevitavelmente, atingida pelo mais forte do grupo, conferindo aos restantes o grau de fracos... isto se um grupo deste género alguma vez durasse o tempo suficiente para que tal viesse a acontecer. Obviamente que, antes disso, já o grupo se fragmentou com as tensões. Pelo que os fortes, para permanecerem fortes, estão condenados a serem "predadores solitários". O que os transforma a eles próprios em presas vulneráveis face a grupos organizados de fracos que, colectivamente, são mais fortes. Motivo pelo qual continuamos a ser governados por uma cambada de medíocres organizados! E motivo pelo qual não existem, na realidade, fortes, caindo Nietzsche numa nova contradição (como a já observada no grande stress que é a utilização do livre arbítrio num cenário de eterno retorno, no qual o livre arbítrio deixa de fazer qualquer sentido).
Afixado por: casulodourado em outubro 13, 2004 01:17 PM