A arte não tem, para o artista, fim social. Tem, sim, um destino social, mas o artista nunca sabe qual ele é, porque a Natureza o oculta no labirinto dos seus designios. Eu explico melhor. O artista deve escrever, pintar, esculpir, sem olhar a outra cousa que ao que escreve, pinta, ou esculpe. Deve escrever sem olhar para fora de si. Por isso a arte, não deve ser, propositadamente, moral nem imoral. É tão vergonhoso fazer arte moral como fazer arte imoral. Ambas as [cousas] implicam que o artista desceu a preocupar-se com a gente de lá fora. Tão inferior é, neste ponto, um sermonário católico como um triste Wilde ou d'Annunzio, sempre com a preocupação de irritar a plateia. Irritar é um modo de agradar. Todas as criaturas que gostam de mulheres sabem isso, e eu também sei.
Fernando Pessoa, in 'Sobre «Orpheu», Sensacionismo e Paùlismo'
Publicado por pns em setembro 25, 2004 12:04 PMFernando Pessoa delineia com exatidão e altivez o papel da arte. Obra alguma é realizada com esquadrinhamento (pelo menos as isentas de interesses pessoais e outrens). Portanto nenhum "feitor cultural" tem interesse em agradar público X,Y ou Z. Se isso ocorre não é arte, é montagem.
Está explicado assim o garboso trabalho do artista,onde refinamento e sensibilidade origina a grande fonte da cultura, donde água pura e cristalina despeja-se sobre toda uma nação...É lamentável que o terreno seja tão árido e semipermeável...mas aí é outra história.