outubro 04, 2004

O Medo da Morte só se Justifica na Juventude

Algumas pessoas idosas vivem obcecadas com o medo da morte. Este sentimento só se justifica na juventude. Os jovens que receiam, com razão, morrer na guerra, podem legitimamente sentir a amargura do pensamento de terem sido defraudados do melhor que a vida lhes podia oferecer. Mas num velho que conheceu já as alegrias e dores humanas e que cumpriu a sua missão, qualquer que fosse, o receio da morte é algo de abjecto e ignóbil. O melhor meio de o vencer - pelo menos quanto a mim - é aumentar gradualmente as nossas preocupações, torná-las cada vez mais impessoais, até ao momento em que, a pouco e pouco, os limites da nossa personalidade recuem e a nossa vida mergulhe mais ainda na vida universal.

Pode-se comparar a existência de um indivíduo a um rio - pequeno a princípio, estreitamente encerrado entre duas margens, arremetendo, com entusiasmo, primeiro os seixos e depois as cataratas. A pouco e pouco, o rio alarga-se, as suas margens afastam-se, a água corre mais calmamente e, por fim, sem nenhuma mudança brusca, desagua no oceano e perde sem sofrimento a sua existência individual.
O homem que na velhice pode ver a sua vida desta maneira, não receará a morte, pois as coisas que o interessavam continuam. E se, com o declínio da vitalidade, a fadiga aumenta, o pensamento do que subsiste não será desagradável. O homem inteligente deve desejar morrer enquanto trabalha ainda, sabendo que os outros continuarão a sua missão interrompida, e contente por pensar ter feito o que lhe era possível fazer.

Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem'

Publicado por pns em outubro 4, 2004 09:43 AM
Comentários

Desculpe, B. Russel, mas sua opinião está muito condicionada à sua particular situação. Prêmio Nobel, famoso e rico, realmente poderia morrer realizado, pois a humanidade continuaria a produzir sua safra usual de filósofos e matemáticos. Outros velhos, porém, nem famosos, nem ricos, temem justificadamente a morte porque precisam terminar trabalhos que, por uma razão ou outra, não puderam chegar ao término. E as chances de morrer logo são muito superiores às que rondam os jovens.Estes vêem-se na mira de um único e distante soldado. O velho sente-se cercado por vários atiradores de elite. Cada vez mais próximos.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em outubro 4, 2004 12:14 PM

Estou de acordo com as idéias de Russel exceto quando ele diz que os jovens se preocupam com o medo,o que não é verdade evidentemente,posto que são isentos de preocupações(ao menos aquelas mais atribuladas dos adultos - em senso de complexidade em uma vida padrão). E isso é o mais fantástico neles...nada como agir por instinto com total liberdade...estes tempos não voltam. Quanto ao exemplo do riacho e das margens do rio, Russel está de parabéns. O ideal seria mesmo que o seu fluxo fosse constante, sem cessar, num comovente espetáculo fulgurante que é a vida. Porque ela está aí para ser vivida, por todos aqueles que se locomovem,onde não há limites enquanto gozo maior.

Afixado por: Phil em outubro 5, 2004 01:46 AM

O medo da morte nasce do desconhecimento do objetivo da existência humana e das realidades do mundo espiritual.
Busque o indivíduo tais conhecimentos e verá, tal qual o que ocorre quando uma luz penetra o escuro jardim, onde se imaginava existir "monstros", vê-se flores.Onde o medo então?

Afixado por: Eraldo Vilar Oliveira em outubro 5, 2004 04:32 PM
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