outubro 08, 2004

A Realidade da Vida e a Realidade do Mundo

A nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida mortal. Se o homem soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo depois, esse mundo perderia toda a sua realidade, como a perdeu para os antigos cristãos, na medida em que estes estavam convencidos de que as suas expectativas escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacte com que ela se faz sentir.

Esta intensidade é tão grande e a sua força é tão elementar que, onde quer que prevaleça, na alegria ou na dor, oblitera qualquer outra realidade mundana. Já se observou muitas vezes que aquilo que a vida dos ricos perde em vitalidade, em intimidade com as «boas coisas» da natureza, ganha em refinamento, em sensibilidade às coisas belas do mundo. O facto é que a capacidade humana de vida no mundo implica sempre uma capacidade de transcender e alienar-se dos processos da própria vida, enquanto a vitalidade e o vigor só podem ser conservados na medida em que os homens se disponham a arcar com o ónus, as fadigas e as penas da vida.

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

Publicado por pns em outubro 8, 2004 09:50 AM
Comentários

É deveras gratífico a observação de Hannah. Como desviar-se da realidade em que vivemos? É difícil...se não impossível desprender de certos laços paradoxais a que nos prendemos;flexíveis e forçados sob polos opostos, o estrago de um possível choque é devastador.
O homem não conhece o valor que a vida tem ou pode apresentar como poço de infinitas realizações;sem roteiros e sobretudo completa de antíteses. É por isso que muitos se perdem e delimitam caminhos,ou se prendem a deuses diversos:dinheiro,pessoa,ou seja, ao algo palpável como forma de consolação para o real significado da vida.
É preciso que tenhamos sobretudo olhos sobre o infindável e sobre nós mesmos...

Afixado por: Phil em outubro 12, 2004 06:03 PM
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