Ninguém se trocaria por um dos seus semelhantes, mas todos se trocariam pelo seu sonho. Porque o homem quer conquistar, mas sem deixar de se possuir. Deseja a continuidade do eu e, juntamente, a sua metamorfose - pretensão contraditória que constitui um dos episódios do eterno automatismo.
O homem ama-se e desama-se. Diante dos outros, mostra-se quase sempre satisfeito consigo - com medo de ser ultrapassado ou emulado -, mas quando está só com o seu eu, experimenta um tédio, uma repulsa, uma repugnância, que em regra se transformam em desejo de transformação. Nem todos são capazes de se contemplar sem adulação até às últimas raízes e reconhecer, ainda que no sigilo da alma, a sua miséria, mas quase todos têm a sua sensação e, com frequência, a certeza - o tédio de si pode notar-se mesmo sem as formas do juízo. E os outros instintos - soberba, gula do mais e do novo - ajudam a desejar a mudança. Existe com frequência em nós o narcisismo, mas o espelho é sempre colocado no passado e no futuro - no presente, nunca.
Giovanni Papini, in 'Relatório Sobre os Homens'
Publicado por pns em outubro 11, 2004 10:08 AMDe fato, o homem "ama-se e desama-se". Mas isso é bom porque se apenas se amasse não mudaria, não evoluiria. Quanto ao desejo de "continuidade do eu", isso me lembra aqueles que, nos EUA, se congelam, após a morte, na esperança de "acordarem" algumas décadas à frente, recuperando a saúde e, talvez, detendo a velhice. Sobre esse tema escrevi um romance que, infelizmente, não tem sensibilizado os editores, medrosos demais de perder dinheiro com novidades apresentadas por autor desconhecido. Quem se congela o faz porque quer conservar o seu "eu". Um clone de si mesmo seria outra pessoa.
Afixado por: Francisco C. Prinheiro Rodrigues em outubro 11, 2004 01:06 PMO homem tende a ser paracleto e detentor daquilo que acha/enxerga no seu universo(que eu acho não ser um grau de evolução,mas de primitividade posto que anseja sempre ter para si,esquecendo-se do ciclo da vida a que todos estão por vontade ou não submetidos).
Ninguém quer abrir mão do que possui!
O narcisismo é claro na autoafirmação do ser humano!!
A vida deve ser pensada, a meu ver, como um jogo de xadrez,onde vez ou outra, para vencer uma peça mais forte ou quem sabe chegar ao xeque,deve-se sacrificar uma peça de menor valia.
Ciente de que o homem não vive só, precisa do outro para encontrar-se ou estabelece-se na sociedade. No que se refere ao narcisismo, como este enxerga o outro? qual o lugar deste outro? e o que tem haver a frase: " é preciso que eu morra para que o outro apareça!
Afixado por: Jassi em outubro 24, 2004 03:14 PMJassi,
A resposta para a sua pergunta é simples. Ele enxerga o outro como ideal a não ser seguido,procurando retalhar tais imagens para o seu futuro modelo. Para o narcisista, existe um espelho que o rodeia a todo tempo,para onde quer que olhe, para assim vislumbrar-lhe a única beleza que existe/resta:ele mesmo.O outro é tido como errante;alguém cujo pão diabo amassou e que por assim dizer é feio. Quanto a frase:" é preciso que eu morra para que o outro apareça!", é o aspecto fiel do narcisismo como pensamento excludente e talvez onisciente.