outubro 11, 2004

A Hipocrisia do Ser

Para que servem esses píncaros elevados da filosofia, em cima dos quais nenhum ser humano se pode colocar, e essas regras que excedem a nossa prática e as nossas forças? Vejo frequentes vezes proporem-nos modelos de vida que nem quem os propõe nem os seus auditores têm alguma esperança de seguir ou, o que é pior, desejo de o fazer. Da mesma folha de papel onde acabou de escrever uma sentença de condenação de um adultério, o juiz rasga um pedaço para enviar um bilhetinho amoroso à mulher de um colega. Aquela com quem acabais de ilicitamente dar uma cambalhota, pouco depois e na vossa própria presença, bradará contra uma similar transgressão de uma sua amiga com mais severidade que o faria Pórcia.

E há quem condene homens à morte por crimes que nem sequer considera transgressões. Quando jovem, vi um gentil-homem apresentar ao povo, com uma mão, versos de notável beleza e licenciosidade, e com outra, a mais belicosa reforma teológica de que o mundo, de há muito àquela parte, teve notícia.
Assim vão os homens. Deixa-se que as leis e os preceitos sigam o seu caminho: nós tomamos outro, não só por desregramento de costumes, mas também frequentemente por termos opiniões e juízos que lhes são contrários.

Michel de Montaigne, in 'Ensaios - Da Vaidade'

Publicado por pns em outubro 11, 2004 01:13 PM
Comentários

Eis a velha frase postada com razão sob gerações:"faça o que digo,mas não faça o que faço". É um prazer incólume reprimir uma outra pessoa,dizendo que está errada por motivos selecionados, aparentando ter sólido domínio sobre estas falhas(concepção própria ou padrão).Mas adiante,longe da multidão,acomete os mesmos ou talvez erros piores que aqueles cometidos por outrem.
É querendo sobrepor-se ao outro que acaba por ser diminuído cada vez mais. Se não bastasse a falha ao qual falsamente mostrou-se isento,percebe-se chagas mais profundas que é aquela do hipócrita,ser que segundo Victor Hugo é um gigante-anão, ou como diz mais adiante, um hermafrodita que se autofecunda...

Afixado por: Phil em outubro 12, 2004 09:31 PM

Acredito que a questão levantada por Montaigne seja muito mais ampla do que um singelo "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço".
Penso referir-se ao meio pelo qual a moral de uma sociedade é criada e mantida.Criam-se figuras divinas,super-homens sem fundamento.Figuras que são perfeitos,mas somente naquilo que não compete ao homem - nem deve competir.
O Homem,através daquilo que denigre sua própria essência - sobretudo denominada conciência - cria um emaranhado de normas de conduta simplesmente para deslocar o homem de seu comportamento original (o que a moral entitula bossal,rude,bárbaro) e levá-lo a uma condição de superioridade.
O que torna tudo isso irônico e sem sentido é o fato de que a sociedade se desenvolvera a modo de se diferenciar do "demais" animais,para provar sua superioridade,sua indiferença.Mas,se nós realmente - digo nós por cortesia - considerássemos os animais inferiores e indignos,me parece estúpido construir tão gigantesca e complexa sociedade apenas para provar,àqueles seres irracionais,que somos superiores a eles.Mas,sendo eles irracionais,como perceberiam essa superioridade.E se percebem,dizermos-nos superiores significa que os "demais" animais são tão inteligentes quanto nós.Então não há superioridade nem inferioridade,apenas natureza.
Me perdoem o tom Nietzscheano.

Afixado por: Fábio Dalcastagne em outubro 13, 2004 04:53 PM

Acredito que a questão levantada por Montaigne seja muito mais ampla do que um singelo "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço".
Penso referir-se ao meio pelo qual a moral de uma sociedade é criada e mantida.Criam-se figuras divinas,super-homens sem fundamento.Figuras que são perfeitos,mas somente naquilo que não compete ao homem - nem deve competir.
O Homem,através daquilo que denigre sua própria essência - sobretudo denominada conciência - cria um emaranhado de normas de conduta simplesmente para deslocar o homem de seu comportamento original (o que a moral entitula bossal,rude,bárbaro) e levá-lo a uma condição de superioridade.
O que torna tudo isso irônico e sem sentido é o fato de que a sociedade se desenvolvera a modo de se diferenciar do "demais" animais,para provar sua superioridade,sua indiferença.Mas,se nós realmente - digo nós por cortesia - considerássemos os animais inferiores e indignos,me parece estúpido construir tão gigantesca e complexa sociedade apenas para provar,àqueles seres irracionais,que somos superiores a eles.Mas,sendo eles irracionais,como perceberiam essa superioridade.E se percebem,dizermos-nos superiores significa que os "demais" animais são tão inteligentes quanto nós.Então não há superioridade nem inferioridade,apenas natureza.
Me perdoem o tom Nietzscheano.

Afixado por: Fábio Dalcastagne em outubro 13, 2004 04:56 PM

Fábio,

Posso ter interpretado de forma diferente da sua, já que todo o texto tem inúmeras maneiras de interpretação,principalmente aqueles pertencentes aos autores clássicos.
Pois bem, em se tratando da hipocrisia da sociedade,conforme sua interpretação,eu concordo com seu ponto de vista. A dimensão e a complexidade adquirida pela sociedade exige o sacrifício de muitos bons "comportamentos originais" inerentes ao homem primitivo(comportamentos estes que não morrem,mas apenas adormecem em sono profundo).Olhamos para trás com desdém sem perceber o solo em que pisamos e a lama grudenta pelo qual passamos por entre.
Bem quanto ao âmbito da superioridade do homem e dos animais vejo uma observação interessante,mas contudo muito fantasiosa,tal qual uma fábula.
A questão é que não nos desenvolvemos para mostrar-nos superior,mas para proteger-nos das intempéries e,principalmente,sobreviver.Mas a mente humana tinha mais caminhos a enveredar,mesmo em sua capacidade limitada(comparando-se ao universo disponível), e a sociedade por este formado viu-se obrigada a desenvolver-se, com o intuito de proteger-se de outros mais perigosos,aqueles que pensavam tal como ela,outros seres humanos(sociedades-civilização). Veja que o combate existe entre seres humanos,onde os animais são secundários.E isso é uma característica que está por natureza inseparavelmente ligado a condição do homem.

Afixado por: Phil em outubro 13, 2004 07:46 PM
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