Para nada ser permanente em nós, até o ódio se extingue: cansamo-nos de aborrecer: a nossa inclinação tem intervalos, em que fica isenta da sua maldade natural; não esquece porém o ódio, que teve por princípio a vaidade ofendida; assim como nunca o favor esquece quando se dirige, e tem por objectivo a vaidade de quem recebe o benefício. A nossa vaidade é a que julga tudo: dá estimação ao favor, e regula os quilates à ofensa; faz muito do que é nada; dos acidentes faz substância; e sempre faz maior tudo o que diz respeito a si. Nos benefícios pagamo-nos menos da utilidade, que do obséquio; nas ofensas consideramos mais o atrevimento da injúria, que o prejuízo do mal; por isso se sente menos a dor das feridas, do que o arrojo do impulso; e assim na vaidade se formam cicatrizes firmes, e seguras; porque a lembrança do agravo a cada instante as faz abrir de novo, e verter sangue.
Matias Aires, Filósofo, 1705-1764, in "Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna"
Publicado por pns em outubro 12, 2004 02:22 PMEstou de acordo com as afirmações de Aires. A vaidade pode parecer simples e discreta quando pronunciada e praticada,consoante pode trazer ondas de devastação sobre si. É um veneno que produz "cicatrizes firmes",pois escraviza e o torna rente a padrões adquiridos,de tal forma que o não trato gera um profundo desconforto com todo o ser que o compõe. É iniciada com os tratos dos pais na infância,que adorna a criança como objeto e faz ela crê que é.Elabora-se na adolescência(pré) quando,como forma de aceitação num dado grupo,adota vaidades típicas da idade. Isso é tudo muito padronizado.E sendo assim,quando uma disfeita é realizada,uma baixa auto-estima se acumula.Surge uma reação aquilo,uma impotência,que vira vício de vida.
Afixado por: Phil em outubro 12, 2004 11:13 PM