Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar.
Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.
(...) Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os outros homens. Como Cornelio Agrippa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou o mundo, o que é uma forma cansativa de dizer que não sou.
(...) A morte (ou a sua alusão) torna os homens delicados e patéticos. Estes comovem-se pela sua condição de fantasmas. Cada acto que executam pode ser o último. Não há um rosto que não esteja por se desfigurar como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perdido. Entre os Imortias, pelo contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o claro presságio de outros que, no futuro, o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é primorosamente gratuito. O elegíaco, o grave, o cerimonial, não contam para os Imortais. Homero e eu separamo-nos nas portas de Tânger. Creio que não nos despedimos.
Jorge Luís Borges, in "O Imortal"
Publicado por pns em outubro 12, 2004 05:04 PMMas como não? Nós somos imortais sim! Observem o universo ao nosso redor.As muitas árvores,bosques e animais. Saibamos que nós formamos,com satisfação,cada parte verde,independente de querer ou não,de ser megero ou não. É sobre o ciclo da decomposição que falo.Nossa carne vira matéria e da matéria forma vida que novamente virará carne que recompõe o perdido,gerando uma harmonia e um equilíbrio constante. Somos imortais sim,posto que a matéria é imortal.E quanto a isso que compomos,que dá vida ao qual chamamos de alma?Um segredo extraterreno,de um ser superior e unipotente que certamente existe,sob a forma humana ou não(salvagardo minhas opiniões,respeitando religiões e teses teológicas de outrens).
Caríssimos,imaginem a imortalidade? Sermos desde o princípio,números exatos contatos. Conheceríamos a todos e seríamos tratados por qualidades e não por nomes,visto que não haveria ambivalências. Os mesmos seriam destratados,tal como são atualmente,eternamente. O ciclo é perfeito, a dinâmica exata, as imperfeições multiformes.
É bom saber que pertenço a um sistema ideal e que todos somos condizentes com um grau de evolução...