Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode ferir-nos mais, mas não nos desola tanto como uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe, por vezes, falha mas a intenção nunca erra o alvo. A dor física é a que menos se sente nos ataques da sorte e, quando os infortunados não sabem a quem culpar pelas suas infelicidades, culpam o destino, que personificam e ao qual atribuem olhos e uma inteligência disposta a atormentá-los intencionalmente.
É o caso de um jogador que, irritado com as suas perdas, se enfurece sem saber contra quem. Imagina que a sorte se encarniça intencionalmente para o atormentar e, encontrando alimento para a sua cólera, excita-se e enfurece-se contra um inimigo que ele próprio criou. O homem sábio, que em todas as infelicidades que lhe acontecem só vê golpes da fatalidade cega, não tem essas agitações insensatas; grita na sua dor, mas sem exaltação, sem cólera; do mal que o atinge só sente os ataques materiais, e os golpes que recebe podem ferir a sua pessoa, mas nenhum atinge o seu coração.
Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'
Publicado por pns em novembro 1, 2004 07:02 PMRousseau preescreve bem o sentimento de culpa que cada ser humano tem de pôr sobre alguém como forma de justificativa ou causa,onde raramente(rara mesmo) poderá ser sua pessoa, mas os outros. Se não for material, culpam o destino apenas em última instância, antes disso culpam quem deslocou e pôs o objeto em tal lugar, ignorando o fato de que você poderia ter sido o causador de tal injúria.
Parece que a dor é acrescida com a raiva,onde
esta tenta acrescentar o máximo de dor possível como forma de culpabilizar o outro pelo dano. Procura-se desde então razões exageradas do "estrago" que não mais é "choque"(nível de intensidade).
Daí o fato de que se formos atingidos por uma bola em praça pública,faremos questão de esperarmos o dono(apenas se a dor for muito intensa é que ficaremos no chão, clamando por socorro e que, quem sabe, desculpemos quando recobrar consciência,como forma de piedade-tendo sempre em mente que existem lá suas exceções)para assim passar dor maior que aquela infrigida pela bola(pelo menos essa é a intenção)apontando chagas já existentes antes do incidente, com fins de que o causador apresente suas apologias sob pressão de surras ou pontapés em lugares sensíveis do corpo ou quem sabe para gerar hematomas maiores pelo corpo do "descuidado". Pode parecer engraçado o ocorrido,todavia é triste saber que a violência vira meio de expressão superior ao da palavra.