novembro 12, 2004

Onde Está a Sinceridade ?

Entre as recordações que cada um de nós guarda, algumas há que só contamos aos amigos. Há ainda outras que nem sequer aos amigos confessamos, que só a nós próprios dizemos e, mesmo assim, no máximo segredo. Finalmente, há coisas que o homem nem sequer se permite confessar a si mesmo. Ao longo da existência, toda a pessoa honesta acumulou não poucas destas recordações. Diria mesmo que a quantidade é tanto maior quanto mais honesto o homem. Eu, em todo o caso, não foi há muito que me decidi a recordar algumas das minhas antigas aventuras; até agora evitava fazê-lo, aliás com um certo desassossego. Porém agora, quando as evoco e desejo mesmo anotá-las, agora vou tirar a prova: será possível sermos francos e sinceros, pelo menos com nós próprios, e dizermo-nos toda a verdade?

Observo, a propósito, que Heine afirma não poderem existir autobiografias exactas e que o homem mente sempre quando fala de si próprio. Em sua opinião, Rousseau enganou-nos à certa nas suas Confessions, e até deliberadamente, por vaidade. Tenho a certeza de que Heine tem razão: compreendo muitíssimo bem que nos possamos acusar de crimes abomináveis apenas por vaidade e também compreendo o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões públicas; ora, eu escrevo só para mim e declaro duma vez por todas que, se pareço dirigir-me ao leitor, é apenas um processo de que me sirvo para maior facilidade.

Fiodor Dostoievski, in 'Cadernos do Subterrâneo'

Publicado por pns em novembro 12, 2004 03:08 PM
Comentários

É complicado deliberar a nós mesmos. Vejo que o homem pouco se conhece, e a psicologia ainda engatinha(será apenas ela?) e que por mais que tentemos ser sinceros com os outros,não somos pessoalmente conosco. Como dizer que alguém falhou em algo se ao menos conhecemos a realidade desta pessoa,que também não se conhece??
É incrível como podemos conceituar pessoas pela aparência ou por apenas alguns breves minutos ou pior, segundos, se ao menos não se sabe o que se passa na cabeça dela??
Para a sinceridade eu retomo campo maior. Sejamos sincero conosco ou pelo não fujamos do campo consciente para que possamos dar com a máxima de precisão possível a quem deseja crer que é(a um amigo(a) ou amada(o) por exemplo). E que nos momentos de mudança, você o(a) avise caso não note(difícil,todavia possível). Todos deveriam saber de sua instabilidade como pessoa que leva característica de cima à abaixo(isso para aquelas que querem viver com algo que lhas dê prazer,podendo permanecer ou mudar conforme o seu gosto,não obrigação).O amor quando plenamente realizado não se abala por mudanças realizada em vida(é assim que medimos a plenitude de um).Um dos dois irão mudar ou continuar da mesma maneira(adaptação à pessoa)Existe um algo a que somos atraídos é muito maior que uma característica desacreditada...

Afixado por: Phil em novembro 12, 2004 04:02 PM

Em termos mais genéricos, eu diria que o ser humano por mais atento que esteja as suas mudanças, não pode ser sincero consigo mesmo. E não sendo sincero consigo, quem dirá com os outros.
Ainda no leito de morte, o homem carrega consigo segredos de que não pode revelar, ou por esquecimento (que acho pouco provável), ou por prudencia (talvez a falta de exemplos dificulte a compreensão..)
Arrisco considerar que o ser humano "não é" , mas "esta sendo". E justamente por isso, tende a julgar alguns dos seus próprios segredos de forma diferente em momentos posteriores, bem como construir uma auto-imagem incoerente, ou não sincera de si.

Afixado por: Zoltan_O_Bardo em novembro 12, 2004 06:02 PM
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