novembro 19, 2004

A Nefasta Hiperdemocracia dos Nossos Tempos

Ninguém, creio eu, deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes, já que têm para isso os apetites e os meios. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as actividades próprias das minorias, não se manifesta, nem pode manifestar-se, só na ordem dos prazeres, mas que é uma maneira geral do tempo. Assim (...) creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. Democracia e Lei, convivência legal, eram sinónimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa actua directamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos.

É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais o seu exercício. Pelo contrário. Isso era o que antes acontecia, isso era a democracia liberal. A massa presumia que, no final de contas, com todos os seus defeitos e vícios, as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Agora, por sua vez, a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei aos seus tópicos de café. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão directamente como no nosso tempo. Por isso falo de hiperdemocracia.

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'

Publicado por pns em novembro 19, 2004 09:08 AM
Comentários

Tão assustadoramente actual, este pensamento de Ortega y Gasset.... :(

Afixado por: pns em novembro 19, 2004 11:40 AM

A tal "hiperdemocracia" de Ortega y Gasset deve ser contestada. Na verdade, o fenômeno da "neo"democracia é efeito pelo homem inserido no espaço em que vive. Com o aumento populacional,não existiu um modo das elites conter as massas em meio a rua, bradando em alto tom,enquanto escritores e intelectuais ficavam mais populares,levando o ideal revolucionário consigo(aproveitando as revoluções liberais do século XIX).Inserido no mundo do conforto, queriam algo já miúdo,mastigado. O rádio e o cinema preto-e-branco veio no momento certo.Os livros morreram.Nova diversão, e a pessoa desaparece como intrumento modificador do meio.Retomamos à prática do "pão e circo" de Roma.
Ortega foi do tempo em que tais idéias começavam a serem fixadas...ainda contestávamos alguma coisa,todavia após guerras,ditaduras(pelo menos aqui na América Latina) e tanto mais, fechamos a boca com medo de que ocasiões maiores e mais trágicas possam acontecer com nossas vidas. Uma conscientização do medo então?Não, ALIENAÇÃO e nada mais. É no entreter e na fuga da realidade que cada vez mais caminhamos em direção ao nada ou quem sabe ao nada menos nada... na sombra de ideologias que o homem nunca conseguiu ainda pôr em prática,destacando as de cunho sociais, o que deveras ocorre ao contrário com as de cunho totalitário).Por que será?

Afixado por: Phil em novembro 22, 2004 05:11 PM
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