Nenhuma época transmite a outra a sua sensibilidade; transmite-lhe apenas a inteligência que teve dessa sensibilidade. Pela emoção somos nós; pela inteligência somos alheios. A inteligência dispersa-nos; por isso é através do que nos dispersa que nos sobrevivemos. Cada época entrega às seguintes apenas aquilo que não foi.
Um deus, no sentido pagão, isto é, verdadeiro, não é mais que a inteligência que um ente tem de si próprio, pois essa inteligência, que tem de si próprio, é a forma impessoal, e por isso ideal, do que é. Formando de nós um conceito intelectual, formamos um deus de nós próprios. Raros, porém, formam de si próprios um conceito intelectual, porque a inteligência é essencialmente objectiva. Mesmo entre os grandes génios são raros os que existiram para si próprios com plena objectividade.
Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro. As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro, tanto que é o lado de fora que se vê.
Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que se não sente.
Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a localidade. Estar é ser.
Fingir é conhecer-se.
Fernando Pessoa, in 'Textos de Crítica e de Intervenção'
Publicado por pns em novembro 25, 2004 10:00 AMPouco li de F. Pessoa. Preguiça. Gosto de autores mais fáceis, embora reconheça seu poder genial de abstração. Sem suma, ele diz que, na área das emoções, há um abismo entre o sentir e sua expressão verbal. Esta nunca corresponde exatamente ao sentido. Isso porque a expressão depende da escolha das palavras e idéias de quem sofre. E cada sofredor tem o seu universo mental próprio. Mas se lhe fosse possível pôr em palavras exatas o seu pesar, os ouvintes também as interpretariam de modo diverso. Conclusão: a comunicação entre os homens sempre será problemática. E não é só na área das emoções.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em novembro 28, 2004 01:22 PMPerdão. No comentário anterior leia-se "Em suma", em vez de "Sem suma". Para isso existe o espaço de "Prever". Esses "comentadores" não aprendem, mesmo...
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em novembro 28, 2004 01:29 PMA problemática das casinhas e dos lugares de encaixe no puzzle universal, parece-me eivada
de heidegger até aos poros. Pessoa é Pessoa.
Quanto ao lugar, não se entende se é adquirido, conquistado, invejado, etecetera...Talvez ainda do ser, sejamos somente projecto disso mesmo.
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Afixado por: Webcam Girls em janeiro 15, 2005 09:37 AM