Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na proporção correcta com a qual dedicamos a nossa atenção em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um não estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados. É raro alguém manter com exactidão a justa medida. Aqueles que, por intermédio de esforços e esperanças, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que hão-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, são, apesar dos seus ares petualentes, comparáveis àqueles asnos da Itália, cujos passos são apressados por um feixe de feno que, preso por um bastão, pende diante da sua cabeça. Desse modo, os asnos vêem sempre o feixe de feno bem próximo, diante de si, e esperam sempre alcançá-lo.
Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado, nunca nos deveríamos esquecer de que só o presente é real e certo; o futuro, ao contrário, apresenta-se quase sempre diverso daquilo que pensávamos.
O passado também era diferente, de modo que, no todo, ambos têm menor importância do que parecem. Pois a distãncia, que diminui os objectos para o olho, engandece-os para o pensamento. Só o presente é verdadeiro e real; ele é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência. Dessa forma, deveríamos sempre dedicar-lhe uma acolhida jovial e fruir com consciência cada hora suportável e livre de contrariedades ou dores, ou seja, não a turvar com feições carrancudas acerca de esperanças malogradas no passado ou com ansiedades pelo futuro. Pois é inteiramente insensato repelir uma boa hora presente, ou estragá-la de propósito, por conta de desgostos do passado ou ansiedades em relação ao porvir.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em dezembro 4, 2004 10:17 AMQuem conseguirá equilibrar o seu passado, presente e futuro?
Aos indivíduos ligados ao passado, não os chamo de medrosos, mas sim os saudosos. Demasiado presos à sua agilidade de vida passada, talvez porque perderam as forças para continuar o presente e a fé para continuarem o futuro.
Indivíduos ligados ao futuro, não os comparo aos asnos, chamo-os de visionários. Quem diria que poderíamos voar, pelos céus? Leonardo DaVinci! Quem diria que caminharíamos na Lua? Quem diria que poderíamos ir até às profundezas dos Oceanos? Júlio Verne! Grandes visionários, sonhadores e precursores das nossas maiores conquistas.
Saudações
Angélika
Este aforismo pareceu-me uma outra explicação para a filosofia de Horácio. O Carpe Diem, zela pelo hoje, para que o nosso amanhã seja tão bom quanto o dia anterior.
Mas é difícil nos desligarmos do passado, no entanto se fosse tão fácil assim, pq Shopenhauer não conseguiu esquecer o fato de que teria que pagar uma pensão mensamente e vitálicia para uma senhora que certa vez ele jogou pela escada, e todo mês na data de pagamento ele se punha em depressão, e também já se colocava em desgosto porque no próximo mês aconteceria a mesma coisa. Não conseguimos nos desligar do passado e nem do futuro, afinal o ser humano está provido de inteligência e memória.
Audrey Ibis
Creio que, inicilmente, devemos ponderar a respeito do que estamos a querer quando nos colocamos a "analisar" ou interpretar um pensmanento de um autor.
Em se tratando de Arthur Shopenhauer, a tarefa se trasfirgura em algo muito mais complexo, e enumerar os motivos pelos quais isso se dá seria impossível num breve, e limitado, comentário de um blog virtual. E não é só isso. Um pensamento é um "fragmento", uma projeção da representação que temos do mundo, resultado da interação de nossas vontades com nossa percepção do que consideramos real ou "o mundo". Ou seja, falar sobre qualquer pensador é uma tarefa sobremaneira árdua, e se este filósofo for Arthur Schopenhaeuer, a situção piora, pois o mesmo se mostrava extremamente pssimista e "convencido" a respeito dos próprios raciocínios.
De qualquer modo, se me permitem comentar as idéias das colegas acima, usarei meu despretencioso cérebro afim de averiguar as possíveis falhas de cada comentário.Todavia, como sempre gosto de lembrar, o próprio ato de escrever o que penso pode se converter num cárcere de minha idéia, pois, enquanto que estudar filosofia se faz através dos livros, FILOSOFAR só é possível pelo debate.
Bem...
Tomando por base o próprio Autor, no caso, schopenhauer, e desde já considerando o temperamento do mesmo, posso sugerir que nossa colega Angélika se confundio um pouco no que tange a "enxergar o futuro". Schopenheur não parece dizer que devemos nos conformar com presente, mas sim viver o presente, e isso inclui sofrer-lhe as amarguras. E isso explica o erro de nossa colega. Não devemos confundir "visionário" com "sonhador". Ora, Schopenhauer sempre declara que 'no futuro' sua inteligência seria reconhecida, e ele, por isso, seria sonhador? Ou ele estaria se contradizendo? Ué, quem não se preocupa com futuro não escreveria tratado algum sobre filosofia, pois com certeza só irão lê-lo no "futuro".
E não é só isso. Mais uma vez devo advertir a colega Angélika. Shopenhauer tem verdadeiro horror à FÉ religiosa ou otimista. A meu ver, qualquer contato com uma "visão feliz" da vida irá nos distanciar absurdamente de Schopenhauer. O fato desse autor sugerir que vivamos no presente não quer dizer que isso seja fácil, ou sequer, possível em todos os momentos. E a coisa fica pior quando tetamos definir o que é memória, pois só com ela podemos perceber o passado. Ora, Schopenhauer, como cita Audrey, sofria de depressão ao deparar-se com um fato passado, e a única maneira de se livrar disso seria tornar-se retardado através da amnésia. E isso é impossível.
Sei lá, não conheço muito bem Schopenhauer(ha ha hahaha) mas sugiro que todos que se interessem por ele, pesquisem a toria Budista do "presente, passado, ou futuro". A seguir, sugiro que leiam as obras de Krishnamurti a respeito do mesmo tema.
Mas para a colega Otimista e visionária, deixo um pergunta. Todavia espero sinceramente que não tome como uma afronta ou deboche, mas apenas um convite ao livre pensar, afinal filosofar nada mais é que pensar.
Vamos à pergunta:
Angélika: Se você sugere que os sonhadores e visionários foram percursores de nossas maiores conquistas, explique o que essas conquistas fizeram-nos avançar rumo à paz?
E mais! Se todos nós estamos neste blog, bancando os filósofos do Carpe Diem, e esse tema envolve "presente, passado e futuro", eu pergunto: O que é o tempo?
Shivakapalika,
Eu não sendo autor do referendo que contesta, digo que você tem muita razão. Schopenhauer foi um conjunto de vários traumas(aliás é interessante os avanços na área de psicologia que afirmam que as problemáticas das pessoas podem se destinar à arte como forma de fuga da realidade - certamente isso é realizável de várias formas, dentre elas quando a pessoa pinta o cabelo, troca a aparência natural por algo mais apetrechado_não é muito bem capricho,mas traumas da infância_ ou escreve compulsivamente livros. É a forma de deteriorar-se para a sociedade) e sua visão é pessimista devido a este motivo[fico imaginando a cena hilária de Nietzsche discutindo com o Schopenhauer o que era muito freqüente(deveriam falar de covas, mortes,cemitérios,por longos intervalos de tempo)]
Quanto as questões apontadas, não concordo que os sonhadores e visionários sejam precursores de nossas maiores conquistas.Apenas sonharam e nada mais! Os precursores reais foram aqueles que acidentalmente/propositalmente acharam a epítote para o problema. Quanto à paz,pergunte ao sistema que nos engendra ou talvez ao mais íntimo do ser humano...infinito.
O que é o tempo?...quem sabe um conjunto de indas e vindas, um desligamento do próprio tempo, baseado nas capacidades do cérebro. A relatividade do tempo gera muita polêmica até hoje. Acredito não termos resposta mediante o pensamento racionalista em que o homem debruça-se sobre.
O Tempo é simplesmente um conceito humano, aparentemente os animais não têm a noção do tempo.
Dividimos o Tempo em três partes como dividimos Deus porque, num espaço tridimensional precisamos de três pontos de referência para identificarmos seja o que for.
Todo o conceito temporal acenta sobre o uso da memória e sobre o seu modo de funcionamento. De facto a diferença fundamental entre os humanos e o resto dos seres vivos neste planeta (dentro do pouco que conheço), reside na fantastica capacidade da nossa memória.
No que diz respeito ao Tempo, só o presente existe, o passado e o futuro tambem são presente.
Quem quiser debater o assunto comigo pode contactar-me com a indicação "Debater o Tempo"
Shivakapalika
Ao ler o seu comentário fiquei um pouco supreendido pois evidenciou as caracteristicas dos personagens do excerto senão veja: "...seus ares petualentes, comparáveis àqueles asnos da Itália, cujos passos são apressados por um feixe de feno que, preso por um bastão, pende diante da sua cabeça. Desse modo, os asnos vêem sempre o feixe de feno bem próximo, diante de si, e esperam sempre alcançá-lo."
Nunca ouviu a palavra humildade...
Caro Sr Virgílio,
queira por favor ser mais claro no vosso comentário. Seja por insuficência de minha inteligência ou por incompetência de vossa escrita, o fato é não compreeendi o que vc quis dizer.
Todavia, se tu estás a criticar minha ausência de humildade, cito novamente Schopenhuer: " A modéstia é a humildade de um hipócrita que pede perdão por seus méritos aos que não têm nenhum."
Carissimo Shivakapalika
Eu critiquem a sua ausência de humildade pelos seguintes factos: "Sei lá, não conheço muito bem Schopenhauer(ha ha hahaha) ...". ; esse rir se não é falta de humildade, então o que é?.."bichos de carpinteiro", ou excesso de pedantismo??...
E a razão pela qual não percebeu o que disse,deveu-se a primeira causa ("...por insuficência de minha inteligência..." )mencionada por si.
"...os asnos vêem sempre o feixe de feno bem próximo, diante de si, e esperam sempre alcançá-lo.", no seu caso acho que já alcançou, pois se acha que é uma pessoa cheia de méritos...quem sou eu para o contradizer.
Ilustre Senhor Virgílio,
Não o conheço e tampouco imagino que tu queiras me conhecer. Todavia, embora parece que eu esteje me retratando, o fato é que sinto que, em termos de Schopenhauer, devemos vertir-lhe a camisa de arrogância para podermos compreender a posição do mesmo. Contudo, não entrarei no mérito do debate sobre humildade, mesmo porque, jamais conheceremos o caráter de alguém por um simples site.
Abraço. Shivakapalika
estarei aberto ao diálogo, mas não mudarei meu estilo.
Carissimo Shivakapalika
Repare para mim não está em causa o seu carácter, pois concordo inteiramente consigo quando diz que "...jamais conheceremos o carácter por um simples site.", o que eu critiquem foi uma atitude, que a meu ver deixou transparecer alguma falta de humildade...
Em relação a isto: " Não o conheço e tampouco imagino que tu queiras me conhecer. ", é verdade que não me conhece ( pessoalmente), mas dizer que eu não gostaria de o conhecer, já não concordo pois nada me leva a pensar isso.
E se eu o critiquem não foi por achar que não presta, pelo contrário, acho que têm valor.
"Uma pessoa pode ter uma má atitude, mas isso não quer dizer que seja uma má pessoa".
P.S. Um Bom Natal! e Um Bom Ano 2005! para voçê.