dezembro 10, 2004

O Domínio da Ira

Querer extinguir inteiramente a cólera é pretensão louca dos estóicos. A cólera deve ser limitada e confinada, tanto na extensão como no tempo. Diremos em primeiro lugar como a inclinação natural e o hábito adquirido para se encolerizar podem ser temperados e acalmados. Diremos, em segundo lugar, como os movimentos particulares da cólera podem ser reprimidos, ou pelo menos refreados, para que não façam mal. Diremos, em terceiro lugar, como suscitar ou apaziguar a cólera nas outras pessoas.
Quanto ao primeiro ponto. Não há outro caminho senão o de meditar e ruminar muito bem os efeitos da cólera, de ver quanto ela perturba a vida humana. E a melhor ocasião de fazer isso, será depois de o acesso ter passado, reflectindo sobre as desvantagens da cólera. Séneca disse muito bem que «a cólera é como uma ruína que se quebra contra o que derruba». (...) Deve o homem cuidar de temperar a cólera mais pelo desdém do que pelo temor, para que assim possa estar acima da injúria e não abaixo dela: o que será coisa fácil, para quem quiser obedecer a esta lei.

Quanto ao segundo ponto. Há três causas e motivos principais da cólera. Primeiro, ser demasiado sensível ao toque, porque aquele que não se sente magoado não se encoleriza; eis porque as pessoas ternas e delicadas necessitam muitas vezes de estar em cólera, pois há muitas coisas que as magoam, às quais não são sensíveis os carácteres mais robustos. Depois, a apreensão e a construção da injúria recebida, em circunstâncias cheias de desprezo; porque é o desprezo que agrava a cólera, tanto ou mais do que a própria ofensa; e eis porque, quando os homens são engenhosos em discernir as circunstâncias do desprezo, fazem assim aumentar a sua própria cólera. Finalmente, a opinião de que foi tocada a nossa reputação multiplica e aviva a cólera; para isso o remédio é, como Gonsalvo constumava dizer, talam honoris crassiorem (Mais crassa pele na honra). Mas, em todas estas retenções da cólera, o melhor remédio é ganhar tempo, e persuadir-se que a oportunidade da vingança ainda não chegou, mas não deixará de vir; e assim tranquilizar-se entrementes. e reservar-se para a ocasião.

Para conter a cólera e evitar os seus malefícios, ainda que ela se apodere inteiramente de vós, há duas coisas de que deveis especialmente acautelar-vos. Uma, é a extrema violência de palavras, especialmente se forem aguçadas e pessoais; porque communia maledicta (insultos comuns) não tem tanta importância; e, além disso, não revelar segredos durante a cólera, porque isso vos torna impróprio da vida social. Outra, nunca quebrar negócio algum por um acesso de cólera; por maior que vos pareça a amargura das palavras, não façais coisa alguma que seja irrevogável.

Quanto a provocar e a apaziguar a cólera em outrém, é preciso para irritar as pessoas, escolher de preferência as ocasiões em que estão mais mal dispostas. Além disso, reunir (como já foi dito), tudo quanto puderdes encontrar que agrave o desprezo. Os dois remédios estão nos contrários. O primeiro, é escolher uma boa ocasião, para, antes de mais, relatar um negócio triste: porque a primeira impressão é muito importante; e o outro é abstrair, tanto quanto seja possível, da suspeita de desprezo, a construção da injúria, imputando-a a um mal entendido, ao temor à paixão, ou ao que quiserdes.

Francis Bacon, in 'Da Cólera'

Publicado por pns em dezembro 10, 2004 05:18 PM
Comentários

"...Não há outro caminho senão o de meditar e rumimar muito bem os efeitos da cólera, de ver quanto ele perturba a vida humana...", Francis Bacon encerra com esta afirmação uma grande verdade, Já que tem sido o homem, sob o dominio da sua ira, a flagelar, desde a sua criação, o seu próximo, com guerras e ódios, provocando um sofrimento sem precedentes, nos outros e em si próprio. Sob a égide da ira o homem tornou-se um predador do outro homem, julgando e condenando o outro igual, como sua propriedade, e escravizando-o ao ponto de pensar que assim, dentro do seu egoísmo, pudesse alcançar uma felicidade que ele nem sequer conhece. Ainda hoje, vivemos sob o dominio da ira e do rancor, e lamentávelmente persistimos, erradamente, a matarmo-nos uns aos outros. Ainda hoje, erradamente, elevamos a nossa natureza animal sobre a divina. O instinto sobre a inteligência e a sabedoria. A ira sobre a tolerância e a compaixão.

Afixado por: humberto em dezembro 11, 2004 01:12 PM

A ação colérica é tida pela grande maioria como algo comum,mesmo existindo meios pelo qual pode ser canalizado. Socialmente falando, chega até a exercer uma espécie de reconhecimento das necessidades humanas,através de caminhos mais agressivos. Alguns são tempestuosos, soltando raios por debaixo do braço,sem medir absolutamente nada. Seu questionamento, no caso de uma perda, vêm mais tarde.

Após as lições dadas pelo Sr. Bacon,achei interessante o seguinte fragmento:
"Deve o homem cuidar de temperar a cólera mais pelo desdém do que pelo temor, para que assim possa estar acima da injúria e não abaixo dela: o que será coisa fácil, para quem quiser obedecer a esta lei."

Indivudualmente,um ato de desdém por um sentimento é por demais complexo,posto que o temor compõe uma defesa,o único modo institivo de revoltar-se contra. Poucos confrontam com armas tais inimigos,pois para isso, é preciso agir com o oposto para contrabalancear.O receio atuante com o temor gera um acúmulo do sentimento detestável interiormente. Um limite haverá e sua explosão será intensa,nuclear, podendo ser praticada contra si mesmo,o que é mais razoável neste sentido.

Como paciente da ação, teme-se as práticas realizadas pelo ser em fúria, como se este fosse um furacão podendo vir em sua direção. Isso tudo tende a generalizar o medo nos contatos humanos,porque realmente nunca se sabe o que passa pela cabeça do indivíduo ou qual o seu limite para que faça determinada coisa.Deveríamos,sob meu prisma, seguir a linha do riso,para chegar mais adiante ao risível.O primeiro é escrachado,evidente,sem artimanhas;algo que muitos confundem com deboche. O segundo é em tom irônico, é a analogia,percepção de mundo e astúcia argumentativa. É uma arma bastante eficaz e sábia como instrumento de contra-balanceio.

O riso ainda é o melhor remédio para a alma e,principalmente, para o corpo.

Afixado por: Phil em dezembro 14, 2004 10:52 PM

A ação colérica é tida pela grande maioria como algo comum,mesmo existindo meios pelo qual pode ser canalizado. Socialmente falando, chega até a exercer uma espécie de reconhecimento das necessidades humanas,através de caminhos mais agressivos. Alguns são tempestuosos, soltando raios por debaixo do braço,sem medir absolutamente nada. Seu questionamento, no caso de uma perda, vêm mais tarde.

Após as lições dadas pelo Sr. Bacon,achei interessante o seguinte fragmento:
"Deve o homem cuidar de temperar a cólera mais pelo desdém do que pelo temor, para que assim possa estar acima da injúria e não abaixo dela: o que será coisa fácil, para quem quiser obedecer a esta lei."

Indivudualmente,um ato de desdém por um sentimento é por demais complexo,posto que o temor compõe uma defesa,o único modo institivo de revoltar-se contra. Poucos confrontam com armas tais inimigos,pois para isso, é preciso agir com o oposto para contrabalancear.O receio atuante com o temor gera um acúmulo do sentimento detestável interiormente. Um limite haverá e sua explosão será intensa,nuclear, podendo ser praticada contra si mesmo,o que é mais razoável neste sentido.

Como paciente da ação, teme-se as práticas realizadas pelo ser em fúria, como se este fosse um furacão podendo vir em sua direção. Isso tudo tende a generalizar o medo nos contatos humanos,porque realmente nunca se sabe o que passa pela cabeça do indivíduo ou qual o seu limite para que faça determinada coisa.Deveríamos,sob meu prisma, seguir a linha do riso,para chegar mais adiante ao risível.O primeiro é escrachado,evidente,sem artimanhas;algo que muitos confundem com deboche. O segundo é em tom irônico, é a analogia,percepção de mundo e astúcia argumentativa. É uma arma bastante eficaz e sábia como instrumento de contra-balanceio.

O riso ainda é o melhor remédio para a alma e,principalmente, para o corpo.

Afixado por: Phil em dezembro 14, 2004 10:53 PM
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