dezembro 11, 2004

Mais umas poucas Dúzias de Homens Ricos

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Almeida Garrett, in 'Viagens na minha Terra'

Nota: Excerto enviado por Angélika

Publicado por pns em dezembro 11, 2004 11:50 PM
Comentários

O Progresso! Tudo em nome do Progresso. Cada vez mais pessoas, cidades, caminhos, e meios de transporte. Maior exploração de recursos naturais, mais resíduos produzidos. Tudo se vende, tudo se compra. Dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. Poder! Hoje o ritmo é bem mais rápido que no tempo de Garrett. Todos os negócios que se criam em segundos, grandes tratados de poder, grandes guerras começadas invocando o bem para todos, mas no fundo é tudo uma questão de Poder! Poder de poucos à custa da miséria de muitos!
O ambiente, os recursos naturais, os animais e agora até os humanos começam a sofrer as graves consequências, da inconsequência das nossas atitudes. E o pior ainda está para vir.

Saudações
Angélika

Afixado por: Angélika em dezembro 12, 2004 08:06 PM

O homem que explora o outro homem, para proveito do primeiro sem dividir com outro segundo, é infelizmente um facto que tem vindo atormentar a humanidade, desde os tempos em que esta surgiu. Este é um tema que já comentei aqui neste espaço, e do qual Almeida Garrett com este escrito vem apenas reforçar o aqui disse, e por isso como não pretendo ser repetitivo, vou apenas focar o aspecto que Garrett fala dos ricos. Pois Garrett, sendo um romântico, chocou a sua sensibilidade quando constatou que o proveito do progresso enriquecia os ricos e os seus custos empobrecia os mais desfavorecidos. Isto é real ainda hoje. Porém, eu creio que Garrett comete aqui uma injustiça ao colocar os todos os ricos no mesmo "saco". Não se pode condenar o rico por ser rico, ou o dinheiro por ser dinheiro. O homem que enriqueceu, criou condições para ser rico, esforçou-se, sacrificou--se, trabalhou para isso. O que não é correcto, como diz e muito bem Garrett, é ele aproveitar o "suor" de outros, para seu próprio proveito. O rico é necessário ao desenvolvimento de qualquer sociedade, com o seu investimento cria-se infraestruturas, postos de trabalho, dinamiza-se a actividade empresarial e a economia. Rico é aquele que divide com os outros a sua experiência, o seu saber, e reparte com cada um o seu bem-estar.

Afixado por: humberto em dezembro 13, 2004 01:02 PM

Humberto,

A questão das disparidades de renda é um agravante no mundo. Mediante a isso,gera-se algo inversamente proporcional entre riqueza e pobreza,como disses bem no final do comentário:"Rico é aquele que divide com os outros a sua experiência, o seu saber, e reparte com cada um o seu bem-estar". Contudo, tenho de discordar de você quando diz que o rico é "O homem que enriqueceu, criou condições para ser rico, esforçou-se, sacrificou--se, trabalhou para isso". Na verdade isso parace-me,se me permite dizer, uma cópia de um texto Calvinista,donde se preza a riqueza no trabalho.
Sabemos que o progresso e a riqueza veio com a competição,com o monopólio,com os falsos acordos,porque o capital acoberta todas as ofensas pessoais,limpa o nome do homem o que não se quer ver sujo,arregimenta falsas identidades,ele está acima do Estado e dos Direitos Humanos.Temos de admitir que o capitalismo vivenciado é o selvagem. Não digo que 100% dos ricos sejam assim,pois existem aqueles que, pobres, herdam furtunas ou ganham com táticas de mercado e que para manter têm de tirar benefícios para si. A imagem do trabalho adicionado ao capital fica cada vez mais difícil de se praticar.

Afixado por: Phil em dezembro 15, 2004 12:09 AM

Com a maior sinceridade, desconhecia que Calvino havia escrito algo semelhante ao que escreví, porque nunca tive oportunidade de ler qualquer obra sua, logo não copiei nenhum texto dele nem de outro autor, porém, tambem não nego que possam existir, por vezes, coincidências ao nível das ideias que se defende. O rico que eu menciono, e sobre o qual o Phil discorda, a minha intenção foi realçar, todos aqueles, e são poucos, cujo seu propósito foi colocar a sua riqueza em prol do desenvolvimento social, economico, politico e cultural de uma determinada comunidade. É natural, como Phil, sabe que a divisão da riqueza foi, é e será sempre um tema delicado, bastante polémico, sendo susceptível de discusão interminável.

Afixado por: humberto em dezembro 15, 2004 10:04 PM
Site Meter