A maioria dos homens, na sua injustiça, para não dizer na sua imprudência, quer possuir amigos tais como eles próprios não seriam. Exigem o que não têm. O que é justo é que, primeiro, sejamos homens de bem e em seguida procuremos o que nos pareça sê-lo. Só entre homens virtuosos se pode estabelecer esta conveniência em amizade, sobre a qual insisto há muito tempo. Unidos pela benevolência, guiar-se-ão nas paixões a que se escravizam os outros homens. Amarão a justiça e a equidade. Estarão sempre prontos a tudo empreender uns pelos outros, e não se exigirão reciprocamente nada que não seja honesto e legítimo. Enfim, terão uns para os outros, não somente deferências e ternuras, mas, também, respeito. Eliminar o respeito da amizade é podar-lhe o seu mais belo ornamento.
É pois erro funesto crer que a amizade abre via livre às paixões e a todos os géneros de desordens. A natureza deu-nos a amizade, não como cumplice do vício, mas como auxiliar da virtude.
A fim de que a virtude, que, sozinha, não poderia chegar ao ápice, pudesse atingi-lo com o auxílio e o apoio de tal companhia. Aqueles para quem esta aliança existe, existiu ou existirá, deverão vê-la como a melhor e a mais feliz que se possa fazer para atingir o soberano bem.
É, digo, numa tal sociedade que se encontram todos os bens desejáveis, a honestidade, a glória, a tranquilidade e a alegria da alma, todos os bens, em uma palavra, que tornam a vida feliz, e sem a qual ela não poderia sê-lo. Se quisermos esta felicidade suprema, apliquemo-nos à virtude, sem a qual não poderíamos adquirir nem a amizade, nem um outro objeto dos nossos desejos. Os que a negligenciam, e que todavia imaginam ter amigos, reconhecerão afinal o seu erro, quando nas horas adversas forem forçados a experimentá-los.
Assim, não será demais insistir, é preciso conhecer antes de amar e não amar antes de conhecer. A negligência, funesta em tantas circunstâncias, é-o sobretudo na escolha e no comércio dos amigos. As reflexões vêm sempre mui tardiamente e, como diz o antigo provérbio, o que está feito, feito está. Ligue-se de qualquer maneira, seja por um comércio diário, seja mesmo por serviços, e depois, repentinamente, à menor ofensa, a amizade quebra-se a meio do caminho.
Marcus Cícero, in 'Diálogo sobre a Amizade'
Publicado por pns em dezembro 13, 2004 01:37 PMMarcus Cícero foi nitidamente um dos grandes pensadores do nosso tempo, cujo pensamento, conjuntamente com outros "clássicos", em muito contribuiu para a edificação social e politica da nossa civilização ocidental. A evidenciar isso, está este pequeno excerto, onde ele nos fala da amizade honesta e sincera entre os homens, onde apela à sua união de esforços e sacrificios em torno de um ideal de progresso que constrói mundos. Contudo, os homens da actualidade viraram-se para o seu próprio "umbigo", construindo um círculo egocêntrico num tempo e num espaço onde não existe mais ninguêm a não ser eles e o seu pensar, e onde os outros só entram para referência e instrumento dos seus propósitos egoístas. "A amizade como auxiliar da virtude", foi assim, na nossa sociedade democrática e pluralista, modelada e transformada, pelos homens de fraco espirito e de personalidade inferior, na "A amizade como auxiliar das conveniências".
Humberto,
Rapidamente...a respeito da sua última frase, dissestes:"A amizade como auxiliar das conveniências".Acredito que ficaria melhor caso trocasse "conveniências" por "incoveniências", acrescida por um advérbio de intensidade:total.
Afixado por: Phil em dezembro 15, 2004 01:37 AM