dezembro 14, 2004

Dignidade Perdida

A meditação perdeu toda a sua dignidade exterior; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; já não se poderia continuar a suportar um sages da velha escola. Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda a espécie, mesmo quando se trate das coisas mais graves; temos apenas necessidade de pouca preparação, e até de pouco silêncio: tudo se passa como se tivéssemos na cabeça uma máquina que girasse incessantemente e que prosseguisse o seu trabalho, mesmo nas piores circunstâncias. Outrora, quando alguém se queria pôr a pensar - era uma coisa excepcional! - era coisa que se notava imediatamente ; notava-se que queria tornar-se mais sábio e que se preparava para uma ideia: o seu rosto ganhava uma expressão como em oração; o homem detinha-se na sua marcha; ficava até imóvel durante horas na rua, apoiado numa perna ou nas duas, quando a ideia lhe «surgia». A coisa «valia» então «esse trabalho».

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

Publicado por pns em dezembro 14, 2004 02:14 PM
Comentários

Existe um cantor braileiro, póstumo, Cazuza, que diz numa música: "nunca viram ninguém triste, por quê não me deixam em paz, as guerras são tão tristes e não têm nada de mais...". Há outra proposição ao texto de Nietzsche: às vezes quando para um pouco para pensar sobre algo, ou quando me abstenho alguns segundos antes de proclamar respostas às perguntas, as outras pessoas logo indagam " o que há, estás triste?" Isso me faz pensar que: as pessoas tem medo do silêncio, pois no silêncio percebe-se que não há o que ser dito, o Homem não admite a insignificância dos diálogos. Mas, quando consigo parar, pensar e proclamar alguma resposta mais elaborada, mesmo que a questão não a seja, percebo ainda repulsa. Outro cantor brasileiro, por coincidência do acaso, também falecido, numa música diz: "e meus amigos parecem ter medo de quem fala o que sentiu, de quem pensa diferente..." Mas, na agitação do mundo - e por quê não dizer: na negação da tranqüilidade - fica difícil conseguir parar e pensar, pois, como bem disse meu amigo Schopenhauer: "O barulho é a tortura do homem de pensamentos".

Afixado por: Fabio Dalcastagne em dezembro 14, 2004 02:37 PM

Há muito pouco tempo, descobri as virtudes de parar, uns segundos, uns minutos, umas horas, para meditar e tentar alcançar a minha paz interior. Assim eu conecto o meu ser exterior com o meu ser interior.
Não confundir meditação, com reflexão, que é o que eu creio ser referido por Nietzsche neste excerto. Reflectir, antes de proferir palavra, antes de agir. Parece-me que Nietzsche tenta retratar a falta de tempo, que envolve o trabalho árduo e incessante, (talvez para cumprir prazos, ou porque assim a sociedade "veloz" o dita), que os indivíduos têm de se submeter, negligenciando a reflexão. Não se tem tempo para pensar, age-se.
Quem pensa, perde o seu tempo, e tempo tornou-se um luxo que não pode ser desperdiçado.
Quantos actualmente se revêm nesta situação? Muitos com certeza.

Saudações
Angélika

Afixado por: Angélika em dezembro 14, 2004 04:29 PM

Na óptica do provérbio: "tempo é dinheiro",como acréscimo das colocações bem feitas pelos dois colegas comentaristas acima, digo que o homem além disto tudo,tinha por direito o pensar,e além disto, tinha por o direito as ferramentas para o pensar. Hoje,como jogo da policaticagem, o mais desnorteado cidadão é o melhor. Querem fazer réplicas da ignorância,bombardeando os cidadão mais interessados com informações pré-programadas. A reflexão sairia de onde?Os protestos continuariam a ocorrer, como em grossa comparação às independências de cunho nativistas no Brasil,ou seja, aquelas que não interferiam no núcleo do problema que era a metrópole. Surgiu o iluminismo e as coisas foram facilitadas,junto com a circunstância da ascensão da Burguesia no século XVIII. Resta torcer para que uma outra classe desbanque a burguesia do trono,com uma outra idelogia forte e de sistema mais bem elaborado que permita ao menos a dignidade perdida da reflexão.

Afixado por: Phil em dezembro 15, 2004 10:52 PM
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