A nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as históricamente conhecidas. Mas assim como o seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.
Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que da nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege o seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.
Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajectória está absolutamente pré-determinada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos... a eleger. Surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem mum só instante se deixa descansar a nossa actividade de decisão. Inclusivé quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.
É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.
Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'
Publicado por pns em dezembro 17, 2004 11:05 AMOrtega y Gasset apresenta um pensamento culposo em pleno altar, relevante. Isso porque no trecho procura totalizar as circunstâncias como pré-selecionada por nós,mesmo que em nível inconsciente,mas não dizia ele que o nosso caráter decide? E como incerto somos, como garantir que outros também não o seja? A culpa seria nossa em não ter percebido ocasiões em que nem a própria pessoa tivera prévio conhecimento da sua situação? Alguns acontecimentos são inequivocamente inesperados,simplesmente por não serem requisitados,surgindo por indefinidas razões nas nossas mais diversas interações(ambientais,humanas,etc.),onde tal como surge,desaparece misteriosamente sem prévio motivo.
O imprevisível existe,como fator de nossa atuação como agentes participadores da vida.De uma pedra,nada poderia ocorrer,senão com a ação de algo vital sobre ela.Imagino muitos pedaços vitais interagindo entre si,formando as dadas circunstâncias em cálculos imprecisos...de vida.