Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas acções, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.
Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.
Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogéneos causa um efeito incómodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.
Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em óptima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em dezembro 19, 2004 10:54 AMA solidão de uma pessoa é a voz de sua melancolia, banhada em algo que desvincula o tempo e espaço do presente. Schopenhaeur desenha exatamente sua pior expressão,cujo embrião são suas várias desilusões ao longo da vida. Para ele,realmente só basta a solidão cadavérica e um profundo conhecimento sobre o assunto. Ele diz que "Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre".Ora, está bem claro que suas objeções são repressões. A liberdade está em agirmos com nossa vontade e não com a solidão. Esta pode ser prisão sem cadeado, tal como um bêbado ou viciado em drogas se aplicada demasiadamente. Pode consumir,servindo como fulga da realidade. Enquanto não aprendermos que a verdadeira liberdade, felicidade e tantos outros sentimentos estão na nossa relação equilibrada entre nós e o meio(não digo o humano em geral),debandaremos para a única forma de proteção nossa contra tais adversidades:o isolamento e a depressão.
Afixado por: Phil em dezembro 22, 2004 01:02 AMA solidão de uma pessoa é a voz de sua melancolia, banhada em algo que desvincula o tempo e espaço do presente. Schopenhaeur desenha exatamente sua pior expressão,cujo embrião são suas várias desilusões ao longo da vida. Para ele,realmente só basta a solidão cadavérica e um profundo conhecimento sobre o assunto. Ele diz que "Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre".Ora, está bem claro que suas objeções são repressões. A liberdade está em agirmos com nossa vontade e não com a solidão. Esta pode ser prisão sem cadeado, tal como um bêbado ou viciado em drogas se aplicada demasiadamente. Pode consumir,servindo como fulga da realidade. Enquanto não aprendermos que a verdadeira liberdade, felicidade e tantos outros sentimentos estão na nossa relação equilibrada entre nós e o meio(não digo o humano em geral),debandaremos para a única forma de proteção nossa contra tais adversidades:o isolamento e a depressão.
Afixado por: Phil em dezembro 22, 2004 01:05 AMNa relação c/ o outro, nunca sou inteiramente despojado de intenções, seja em palavras ou comportamento. Não sou inteiramente livre. Dependo, de certa forma, da aprovação, da aceitação do outro. Todo contato c/ o outro, inevitavelmente, é sedutor. Há sim, por mais sutil que seja, uma tentativa de impressionar, conquistar (não falo somente do aspecto social), adquirir talvez alguma vantagem, seja o que for. Só qdo estou comigo mesma é que sou livre, isto se tiver a capacidade de admitir minhas mazelas, fraquezas, sombras. Se delas não fugir. Só a mim digo tudo, só a mim deixo transparecer meu pior e meu melhor, minhas vaidades, meus medos. Exibo tudo, sem esconder. Nesse momento, sim, sou inteiramente livre. Não vejo nada de depressivo nisso. Não entendo solidão como algo negativo. Entendo como parte essencial do meu ser, onde me busco e me refaço, onde não cabe ninguém. Solidão não é necessariamente isolamento. Aliás, tanto se fala na importância da meditação, que nada mais é que o mergulho em si mesmo, em um momento que me afasto de todos. Vital.
Janis
Janis,
Desculpe,mas percebendo sutilmente que tal observação advêm de meu comentário,digo,pois, que compreendo sua visão. Dependemos de uma aceitação de um outro para sobreviver como pessoa. Por que não corremos nus na rua? Pensarão em loucura.É simplesmente impossível,mas é um ato de liberdade.
É certo que a reflexão, a meditação profunda sobre o ser, reflete uma espécie de "análise psicológica" sobre si de forma muito positiva. É a correção e averiguação pessoal sobre nós mesmos. Mas de todo não significa "vital".É uma escolha no nível da consciência ou insconsciência. Acredito ser,como eu disse, apenas uma forma de correção,uma espécie de fuga e auto-medicação daquilo que o aflige.
Acredito no existir de 2 tipos de solidão:a oriunda da fuga e a da pura e saudável meditação.
Disse que:"A liberdade está em agirmos com nossa vontade e não com a solidão. Esta pode ser prisão sem cadeado, tal como um bêbado ou viciado em drogas se aplicada demasiadamente." O que é verdade, posto que muitos autores de considerável relevância, gênios literários, fizeram luz baseado na fuga que constitui a melancolia, a produção de obras artísticas para compensar insatisfações internas. Ela deve ser feita gradualmente, a fim de evitar um refluxo inesperado,como numa onda, podendo monocromatizar muitas coisas em plena vida.
Sem dúvida, a solidão é altamente necessária,mas solidão para com o nada, para uma pessoa estática trancada em um quarto, sentada em uma escrivaninha, a imaginar...não é muita liberdade.
Schopenhaeur,assim como muitos autores românticos, deprimiram-se e morreram cultivando o sofrimento.
A solidão é muito mais,na minha opinião, a arte da qual comentei:"na nossa relação equilibrada entre nós e o meio(não digo o humano em geral)",o focar na vida, seu desenvolvimento com as formas simples de existência, ou o fluir de leves atos criativos,imaginários, está aí a liberdade atirada como presente imperceptível,sobretudo vivido.
Pois é Janis parece que vc compreendeu muito bem a idéia de Shopenhauer. Apenas quando estamos sós olhamos para dentro de nós mesmos. Como dizia Nietzsche "O outro é o inferno"...rsrs Também diria que, muitas das vezes, o "outro" é também uma fuga. É também no "outro" que buscamos a aceitação e fugimos da solidão. Mas, estamos sós ... e sós deverámos refletir mais sobre o nosso "eu", e nossas dores como seres humanos.
Afixado por: Lindiane em janeiro 30, 2005 08:35 PM