Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.
Eugénio de Andrade, in 'Os Afluentes do Silêncio'
Publicado por pns em dezembro 23, 2004 09:55 AMA idéia de "fragmento do homem" foi muito bem aplicada. Um primor de pensamento em meio a funesta realidade. Onde está o indivíduo? Fragmentado em mil pedaços,em cacos,espalhados. O ser humano em si é um pedaço de caco,cujos diâmetros desiguais são fechados por opostas formas, num ciclo da coexistência e vivência do contato externo. Daí a união social, daí o interesse mediante algumas argamassas. O homem se completa com algo no exterior. A felicidade vem de si,porém o "empurrão" para tal realização vêm como agente externo que erodi a rocha da vida,prometendo razoáveis proporções. Mas de que adianta se o próprio fragmentar é constante e que de vez em vez o homem acerta toda uma vida(humana,vegetal ou animal). Certo dia o simples fio de instabilidade pode ser a partilha completa de mais fragmentos irreconciliáveis.Aguardaremos as partículas...
Afixado por: Phil em dezembro 29, 2004 02:02 AM