dezembro 26, 2004

Virtudes Inconscientes

Todas as qualidades pessoais de que um homem tem consciência - sobretudo quando supõe que os que o rodeiam as vêem, que saltam aos olhos dos outros -, estão submetidas a leis da evolução completamente diferentes daquelas que regem as qualidades que ele conhece mal ou não conhece, as qualidades que a sua finura dissimula ao observador mais subtil e que parecem entrincheirar-se atrás da cortina do nada. Assim como a delicada gravura que esculpe a escama da serpente: seria um erro ver nela ou uma arma ou um ornamento, porque só é possível descobri-la ao microscópio, por consequência com um olho cuja potência é devida a tais artifícios que os animais para os quais ela teria por sua vez servido de arma ou de ornamento não possuem semelhante!

As nossas qualidade morais visíveis e, nomeadamente, aquelas que nós acreditamos serem tais, seguem o seu caminho; e as do mesmo nome que se não vêem, que não podem portanto servir-nos de arma ou de ornamento, seguem assim o seu caminho, provavelmente completamente diferente, decoradas de linhas, de finuras e de esculturas que poderiam talvez dar prazer a um deus munido com um microscópio divino. Eis por exemplo o nosso zelo, a nossa ambição, a nossa perspicácia: temo-los, toda a gente os conhece; mas não possuímos além disso o nosso zelo, a nossa ambição, a nossa perspicácia, escamas de réptil para as quais ainda se não encontrou nenhum microscópio? E eis os amigos da moralidade instintiva a gritar: «Bravo! Ao menos admite a possibilidade de virtudes instintivas!... Isso não basta!» Oh! como vos basta pouco!

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

Publicado por pns em dezembro 26, 2004 09:58 AM
Comentários

Nietzsche como um profundo questionador dos conceitos adentra em um campo muito interessante, a que o sábio pns já pôs em questão no título: "Virtudes inconscientes", a tal "virtude instintiva" usada no fragmento extraído. Muito antes de Freud, Nietzsche com seu microscópio quis verificar a verdade acerca de uma qualidade. Seria o mal realmente mal ou o bom realmente bom? Percebeu que conceitos não existiam,eram tudo ilusão,farsa e enganação.Misérias. Niilismo profundo.
Certas coisas, nem o seu microscópio pessoal dava conta tamanha pequenez...isso tudo em pleno século XIX onde moral e honra eram as chaves do progresso e da civilização,principalmente esta. Bom atrevimento este!! Contudo, o descrédito total foi seu erro, a loucura do própria existência seu clímax. Ainda me pergunto se ser céptico ajuda alguma coisa,quando no momento é questionar. Não seria possível adequar um conceito pessoal. Ao invés de apresentar conceitos nulos, apresentariam conceitos personalisados infinitos. Se ouvesse erro... cairia sobre você e seria feita a renovação experimental.

Afixado por: Phil em dezembro 29, 2004 03:10 AM
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