Os supermercados são os palácios dos pobres. Não são só os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gerações foram reduzindo os gastos da imaginação, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superfícies. As grandes superfícies com a sua área iluminada e sempre em festa; a concentração dos prazeres correntes, como a alimentação e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambições do quotidiano. Não há euforia mas há um sentimento de parentesco face às limitações de cada um. A chuva e o calor são poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; há uma emoção própria que paira nas naves das grandes superfícies. São as catedrais da conveniência, dão a ilusão de que o sol quando nasce é para todos e que a cultura e a segurança estão ao alcance das pequenas bolsas. Não há polícia, há uma paz de transeunte que a cidade já não oferece.
Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo'
Publicado por pns em dezembro 29, 2004 08:50 AMNão entendi o porque dos supermercados...caberia muito melhor o termo "shopping",que na verdade, aportuguesando, seria um hiper supermercado, sem redundância.
Realmente, nele tudo podemos acreditar que somos,pois estamos no mundo do consumo. E muito mais que isso, querem fazer de nós, após horas de lazer aparente em casa, com a televisão e rádio, o meio de retorno do dinheiro e o enclausuramento da pessoa com a perca total da noção do tempo. Poucos são aqueles que apresentam janelas para o céu. Não sabe-se mais a hora,apenas nos relógios podem confiar.
Chamam isso de viver,mas de que modo se são arquitetados os modelos? O tempo fora oferecido não por ser necessário(apenas) a vida humana, o repouso, mas sobretudo um tempo meio produtivo de gastos e retorno de capital. É assim que a dinamização da economia flui.
"A paz do transeunte" é verdadeira,mas que sejam fechados os olhos e que a bolsa fique em casa...difícil escapar da tentação, não?