Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de se anular a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. Não os desta ou os daquela, mas – ao que hoje pode julgar-se – os de nenhuma. Interessam-lhe evidentemente os anestésicos, os automóveis e algumas coisas mais. Mas isto confirma o seu radical desinteresse pela civilização. Pois estas coisas são só produtos dela, e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze, as ciências físicas – portanto, desde o Renascimento –, o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso, ao longo do tempo. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. O primeiro caso de retrocesso – repito, proporcional – produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos. Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. E isso acontece quando a indústria alcança o seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência.
Se não fora prolixo, poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política, na arte, na moral, na religião e nas zonas cotidianas da vida. Que nos significa situação tão paradoxal? (...) Significa que o homem hoje dominante é um primitivo, um Naturmensch emergindo no meio de um mundo civilizado. O civilizado é o mundo, porém, o seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização, mas usa dela como se fosse natureza. O novo homem deseja o automóvel e goza dele, mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. No fundo da sua alma desconhece o carácter artificial, quase inverossímil, da civilização, e não estenderá o seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis. Quando mais acima, transpondo umas palavras de Rathenau, dizia eu que assistimos à«invasão vertical dos bárbaros», pode julgar-se – como é habitual – que se tratava apenas de uma «frase». Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro, mas que é o contrário de uma «frase», a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. O homem-massa actual é, com efeito, um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização.
Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'
Publicado por pns em janeiro 7, 2005 03:00 PMÉ curiosa esta observação analisada por Ortega y Gasset. Realmente o efeito das deduções, induções, a busca pela experimentação, fator da Revolução Científica do século XVII, cada vez mais reduz-se devido ao fato de não existir mais o senso aguçado de curiosidade, necessidade. Atualmente, vivemos no conforto que o capital nos proporciona, gerando consigo desleixo e muita...muita vegetação(aliás, é isso que a ivilização privilegia, os prazeres- essências sem dúvida,mas não essências únicas - e o trabalho cotidiano, onde nunca se viu tantos buscando não o conhecimento em si,mas o capital para que possam efetuar suas comprinhas no final de semana. Nos jornais, no classificado, vale mais pôr o salário do que a profissão a ser exercida. Daí, retiram-se pessoas pouco qualificadas no exame, consequentemente inúteis profissionais.
Havia formas de segregação social no século XVI e XV, já que com o Renascimento houve maior produção de livros: a da cultura e a da riqueza. Cada vez mais o capital autoritário tenta resguardar seus fundos para o que o gerou:a riqueza. E quanto a cultura...que seja apenas necessária para obtê-lo, como escrava.