O único factor material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns dos outros que as potencialidades da acção estão sempre presentes; e, portanto, a fundação de cidades que, como as cidades-estado, se converteram em paradigmas para toda a organização política ocidental, foi na verdade a condição prévia material mais importante do poder.
O que mantém unidas as pessoas depois de ter passado o momento fugaz da acção (aquilo que hoje chamamos «organização») e o que elas, por sua vez, mantêm vivo ao permanecerem unidas é o poder. Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência renuncia ao poder e torna-se impotente, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam as suas razões.
Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'
Publicado por pns em janeiro 9, 2005 04:46 PMH. Arendt nos adverte da necessidade de nos "enturmar" para vencer, com ou sem aspas. Daí o interesse de ingressar num partido político ou outra organização com alguma parcela de poder. A convivência gera favores e elogios recíprocos, transformando um quase inútil elo em uma poderosa corrente que gera prestígio, empregos, dinheiro (lícito ou ilícito),e solidariedade corporativa. "Sábios" isolados, pouco podem fazer.
Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em janeiro 10, 2005 10:25 AMTem de ser um grande isolamento. Só mesmo Robinson Crusoé e sem nunca encontrar Sexta-Feira. Eu concordo com Hannah Arendt, mas não creio que a participação política se reduza à pertença a partidos políticos ou organizações afins, como refere Francisco (é ver, desde logo, a Constituição Portuguesa e todas as formas de participação política e/ou na vida pública aí consagradas).
O poder existe até entre um casal de namorados: é neste poder (embora Arendt se refira, logicamente, às cidades-estado sua consequência) que se deve pensar: o poder que sempre emerge das relações humanas activas. Onde se tomam decisões há acção e há poder. Não é imediatamente poder político, é poder a uma escala menor, mas se um dos sujeitos toma decisões em nome dos dois (representação) então mesmo nessa escala menor já anda muito perto. De qualquer forma, tudo começa sempre pelo número 2.
A renuncia de que fala Arendt é uma certa postura anti-social bastante incisiva, não um mero isolamento. O meu orientador é um tipo sem partido e mexeu as cordinhas quase todas nesta revisão do contencioso administrativo: é académico, pois claro. Não tem partido mas não está isolado.
Saudações
Ana
O comentário de Ana foi bastante proveitoso, já que o amigo Francisco caminhou para o âmbito das relações de governo, parte de sua experiência de vida. Assim, a colega comentarista soube demonstrar a relação de poder existente nos minímos gestos, onde há uma relação tipo cambista entre a ação e o poder.
Foi bastante pernicioso a observação de que a ausência de um "partido" de poder possa ser uma postura anti-social e não um isolamento.Antes disso, faço a minha observação de que não podemos falar que isso seja algo que contraponha a sociedade,sabendo-se que o homem necessita de contato humano para não cair no ostracismo depressivo(a isso sabe-se comprovadamente), assim como necessita da realização seus "encaixes espirituais"(da alma, necessitando de um outro ser humano que faça intercâmbio entre cada mentalidade,daí a reflexão sobre o sentido de cada vida). A opinião independente não fará pertencer a grupo seleto,cuja linhagem o arregimenta. Assim, conclusivamente, poderíamos travar relações diversas, reconhecendo a nossa existência como ser de vida gabaritada no amor-próprio,no coletivo e, sobretudo, na base das relações naturais,daí o poder da renúncia e da vivência ao mesmo tempo...