O que em sociedade desagrada aos grandes espíritos é a igualdade de direitos e, portanto, de pretensões, em face da desigualdade de capacidades, de realizações (sociais) dos outros. A chamada boa sociedade admite méritos de todo o tipo, menos os intelectuais: estes chegam a ser contrabando. Ela obriga-nos a demonstrar uma paciência sem limites com qualquer insensatez, loucura, absurdo, obtusidade. Por outro lado, os méritos pessoais devem mendigar perdão ou ocultar-se, pois a superioridade intelectual, sem interferência nenhuma da vontade, fere pela sua mera existência. Eis por que a sociedade, chamada de boa, não tem só a desvantagem de pôr-nos em contacto com homens que não podemos louvar nem amar, mas também a de não permitir que sejamos nós mesmos, tal qual é conveniente à nossa natureza. Antes,obriga-nos, por conta do uníssono com os demais, a encolhermo-nos ou mesmo a desfigurarmo-nos.
Discursos ou ideias espirituosas só têm sentido perante uma sociedade igualmente rica de espírito. Na sociedade vulgar são francamente odiados; para serem admirados nela, precisam de ser totalmente triviais e limitados. Nessa sociedade, por conseguinte, temos de renunciar, com difícil auto-abnegação, a 3/4 de nós mesmos, a fim de nos parecermos com os demais. Em compensação, temos obviamente os outros, mas quanto mais uma pessoa possui valor próprio, tanto mais achará que o ganho não cobre a perda e que o negócio redunda em prejuízo. Porque as pessoas, via de regra, são insolventes, isto é, nada há no seu convívio que indemnize o tédio, as fadigas e incómodos que provocam, nem a auto-abnegação que impõem. Por isso, quase toda a sociedade é constituída de tal modo, que quem a troca pela solidão faz um bom negócio.
Ajunte-se a isso o facto de que a sociedade, a fim de substituir a autêntica superioridade, isto é, a do espírito, que ela não suporta e que é também difícil de encontrar, adoptou sem mais nem menos uma superioridade falsa, convencional, baseada em normas arbitrárias, propagando-se pela tradição entre as classes elevadas e alterando-se como se alteram as palavras de ordem. É o chamado bom-tom, fashionableness. Quando, entretanto, tal superioridade entra em colisão com a genuína, a primeira caba por mostrar a sua fraqueza.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em janeiro 9, 2005 11:55 PMestava a reconhecer o tom. nunca foi schopenhauer que não fez qualquer esforço para se adaptar: os outros é que estavam todos errados.
Afixado por: ana em janeiro 10, 2005 11:45 AMSempre busquei a razão pelo qual Schoppenhauer demonstra tanto uma linguagem em prol da solidão humana,mergulhante na profunda depressão mental.
Neste trecho está a resposta para a minha pergunta, como se ele tivesse respondido após tanto tempo.(rs)
Ele acredita que o mal está na sociedade e que por isso ele deve repudiar, acreditando estar a única solução para tal problema na solidão profunda do ser(típica visão do século XIX,de que ele seria o único a ter tal noção,com todos ficando à margem - engraçado que atualmente encontra-se muitos casos de escritores ou intelectuais na mesma situação que ele). Aliás, é este isolamento e este pessimismo que gera o intelecto e as obras humanas por conseguinte, como já havia dito em meus comentários.
Caríssimo Schoppenhauer, não, não você não é o único, outros pensam como você e por modo isolado fazem cultura. O remédio pode estar não no isolamente, mas na separação de castas e suas constantes alterações. Se tu encontrasse por razão do acaso um outro pensante, talvez geraria algo a mais dentro de tais castas. A fuga para a vida está diante de tais pessoas seletas. A condição do indivíduo está naquilo que a sociedade interage e aquilo que o próprio interior remete a gravidade do problema.