A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consequência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que um animal, um homem, pereçam mais cedo do que seria necessário, «a despeito do destino», como dizia Homero.
Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos seus juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de existir sem ele!
Enquanto uma função não está madura enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o organismo: é uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consciência é-o severamente, e não é ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que este orgulho forma o núcleo do ser humano; que é o seu elemento duradoiro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente é uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como «a unidade do organismo»! Sobrestima-se, desconhece-se ridiculamente, aquilo que teve a consequência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram para a adquirir; e hoje ainda estão nisso! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente actual, que o olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem; uma tarefa de que só se dão conta aqueles que compreenderam que até aqui o homem só incorporou o erro, que toda a nossa consciência se relaciona com ele.
Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'
Publicado por pns em janeiro 11, 2005 10:29 AMDe fato, a consciência é, no homem, a última fase, ainda trôpega, da evolução. Quem ainda manda mais é o poderoso instinto. Mas seu maior vigor não deve desestimular a construção da consciência, por mais que esta ainda sofra a influência desnorteante de utopias e outras "loucuras" ideológicas.Guerras e massacres teriam sido evitados se não tivessem exitido certas "idéias" incentivadoras, mas os homens se matariam às pauladas se apenas o instinto prevalecesse.Ninguém iria socorrer as vítimas das "tsunamis".
Afixado por: Francisco C. P. Rodrigues em janeiro 11, 2005 07:04 PMAcredito eu, em meu humilde comentário,que em se tratando de tão elaborado tema, o amigo Francisco,acima, tenha se equivocado quanto a real atuação das idéias preconizadas pelo frívolo Nietzsche.
Francisco acredita que a consciência influencia a rouquidão social,tratando o ato humanitário de consciente(como o exemplo citado da ajuda para as vítimas dos tsunamis),enquanto Nietzsche desdenha tal ato dizendo que são meros frutos instintivos:"Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram para a adquirir; e hoje ainda estão nisso",o que Francisco nega "os homens se matariam às pauladas se apenas o instinto prevalecesse".Neste caso, eu apresento uma visão que concorda em meia parte com as idéias de Nietzsche. Ato humanitário...apenas quando feita do indivíduo para o indivíduo. Quando se trata de um grupo social, representado por um Estado Nacional,acredito ser difícil. Há interesses secundários rodeando tais atuações.
Pergunto-me em que momento a consciência humana será consciência de vida e não de seus caprichos pessoais? Segundo o mandamento de Deus, na religião cristã, diz-se:"ame os próximos como a ti mesmo". No caso, o amor-próprio,necessário a evolução para o amor coletivo, encontra-se preso nele mesmo ou inacabado no que restaria a ser preeenchido. As primeiras palavras do mandamento estariam apagadas e a consciência,instrumento máximo da racionalidade humana, ficaria presa junto com a mesma,impotente quanto aos seus significados usuais. Restaria o instinto humano,conservador, primitivo,que restabelecendo a competição geraria o individualismo nosso,em escala de sobrevivência(complicado quando se têm a consciência presa, deixando tal instinto ultrapassar as barreiras que seria a da própria sobrevivência, adentrando nas fronteiras da ´luxúria e do conforto próprio).
Acredito ser a união desequilibrada entre a consciência e o instinto,no fato de uma não complementar a outra,gerando discordâncias ou competições desvantajosas, fase máxima das problemáticas do homem.