As pessoas que mais admiro são aquelas que melhor divergem da minha pessoa. Claro está, só se diverge de outrem dentro do que nos é comum. Porque há quem nada tenha de comum connosco, nem sequer a própria existência e a mesma humanidade. E não esqueçamos que o espaço e o tempo são aparências por nós fabricadas para dar passo ao espírito e não lenha para nos queimarmos. Ao mesmo tempo e no mesmo espaço podem juntar-se as pessoas mais alheias entre si e como não acontece na História em tempos e espaços diferentes. A universalidade humana é tão vária que pode um satisfazer inteiramente a sua e sem que lhe passe sequer pela cabeça a de outro que satisfaça também completamente a dele.
O tempo de cada qual é o justo para si. Não é dado a ninguém a ocasião da polícia do tempo de outrem. De modo que à porta da nossa intimidade havemos de pôr a admiração por aquele que vai entrar, tanto em quanto diverge como em quanto coincide connosco. Por outras palavras: não vale mais o nosso mistério do que o de outro qualquer. Só o mistério chega inteiro ao fim.
Almada Negreiros, in 'Textos de Intervenção'
Publicado por pns em janeiro 14, 2005 12:30 AMÉ difícil ter admiração por aquela pessoa que não é similar,que diverge de você. Mas por assim dizer, é entendendo as divergências que se chega a motivação que o inqueta. "Porque Beltrano não é como eu sou?Por que implica tanto comigo?" pensa-se logo o seu ser como se fosse um exemplo a se seguir...o outro divergente seria o desgarrado. "Mas quem prova que o desgarrado seja ele? Poderia ser você!" - pensa-se.
A nível de experiêcia, mais vale uma divergência em vida que uma semelhança, que é o que realmente buscamos, um espelho de você mesmo. A vida torna-se mais dinâmica quando aprendemos a língua da divergência. Apenas a língua, posto que acredito que admirar seria renegar as suas próprias convicções, algo difícil hoje em dia. AO menos aprender a aceitar e a não ignorar. Conversar de forma silábica, mas sobretudo conversando!!