janeiro 14, 2005

O Despotismo do Homem Vulgar

A história européia parece, pela primeira vez, entregue à decisão do homem vulgar como tal. Ou dito em voz activa: o homem vulgar, antes dirigido, resolveu governar o mundo. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele, automaticamente, mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. Se, atendendo aos defeitos da vida pública, estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa, encontra-se o seguinte: 1º, uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil, abastada, sem limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em si mesmo uma sensação de domínio e triunfo que, 2º, convida-o a afirmar-se a si mesmo tal qual é, a considerar bom e completo o seu haver moral e intelectual. Este contentamento consigo mesmo leva-o a fechar-se em si mesmo para toda a instância exterior, a não ouvir, a não pôr em tela de juízo as suas opiniões e a não contar com os demais. A sua sensação íntima de domínio incita-o constantemente a exercer predomínio. Actuará, pois, como se somente ele e os seus congéneres existissem no mundo; portanto, 3º, intervirá em tudo impondo a sua vulgar opinião, sem considerações, contemplações, trâmites nem reservas; quer dizer, segundo um regime de «acção direta».

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'

Publicado por pns em janeiro 14, 2005 09:47 PM
Comentários

Tal despotismo não é esclarecido pelo fato do homem ultrapassar os limites básicos que seria a a da sua sobrevivência. Ele quer conforto e progresso material. Sendo assim, desconsidera o fato de ser uma laranja cortada, cuja parte superior é a fonte externa e a parte inferior é a fonte interna, cuja existência baseia-se no reconhecimento e correlação existente em ambas. Ele prioriza a sua parte, enfocando apenas nela,sulcando tudo para a sua parte inferior. Não devemos esquecer que o homem é um ser sociável,cuja sobrevivência depende deste, mesmo estando tal socialização recheada de interesses. Sabendo-se ao menos a existência da parte superior desta laranja, está tudo bem.
Está aí a sua tão dita vulgaridade efêmera de lidar com o artefato revolucionário que é a vida.

Afixado por: Phil em janeiro 17, 2005 10:58 PM
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